quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A imagem de uma falsa Esquerda na retórica de Manuel Alegre

Miguel Urbano analisa neste artigo a campanha de intoxicação mediática em curso e a intervenção de Manuel Alegre na reunião por si organizada, a meias com o Bloco de Esquerda.

Nos últimos dias, um Encontro, intitulado Fórum Democracia e Serviço Público, concebido e montado pelo Bloco de Esquerda e Manuel Alegre, e realizado na Reitoria da Universidade de Lisboa, foi transformado em grande acontecimento nacional pelos mass media.

Os colunistas com banca nos jornais e os comentadores com programas na TV deram-lhe atenção prioritária, multiplicando as interpretações sobre o significado da intervenção de Manuel Alegre no fecho da iniciativa. Alguns epígonos, entusiasmados, proclamaram que essa oração abria um novo rumo à esquerda em Portugal.
A euforia revela incompreensão do que foi ali dito e a maioria das análises contribuiu para aumentar a confusão gerada pela mensagem do veterano militante do PS.

O discurso de Manuel Alegre foi uma peça de retórica tradicional com recheio de ideias velhas.

No preâmbulo fez um breve inventário da crise, lembrando que tudo corre mal. Disse o óbvio, tomando distância da política de direita do seu partido.

Para ser bem entendido, recorreu a exemplos para contrapor o positivo – isto é o que se deve fazer em épocas de crise – ao negativo, ou seja a estratégia de Sócrates, sem alias lhe citar o nome. Elogiou então Roosevelt e o seu new deal, a esperança de Obama e a grandeza de Leon Blum.Esse o caminho que aponta à esquerda, tal como a concebe.

O refrão para a mudança foi a palavra coragem. Na sua oratória pediu coragem às esquerdas para mudar a sociedade. Sem ela não há remédios que possam travar a corrida para o abismo e reduzir a desigualdade entre os portugueses, cada vez maior.

Não definiu, porém, o seu conceito de coragem.A omissão não passou despercebida porque os portugueses progressistas não esqueceram que ele Manuel Alegre, não revelou coragem quando foi membro de um dos governos de Mário Soares, a coragem que lhe faltou ao apoiar durante muitos anos as politicas de direita do PS.

Registei uma breve referência aos males do capitalismo, mas acompanhada de alusões críticas ao PCP, porque o seu socialismo é «o democrático», aquele que tem defendido desde que aderiu ao PS cujo actual primeiro-ministro promove a política mais reaccionária que Portugal conheceu desde o 25 de Abril.Ao longo da sua oração usou e abusou da palavra esquerda. Por vezes no plural. Não conseguiu, contudo, transmitir com um mínimo de clareza o que entende por esquerda.

Que esquerda é afinal aquela a que se dirige, na esperança de a mobilizar para o combate por uma sociedade diferente?

Será a do liberal Roosevelt, o criador mitificado do moderno imperialismo norte-americano? O lado positivo do new deal keynesiano como estratégia de intervenção estatal que salvou o capitalismo não apaga o facto de Roosevelt ter sido aliado firme das piores ditaduras latino-americanas. Ou será a esquerda do francês Blum? Terá Alegre esquecido que as medidas progressistas que criaram o chamado Estado do Bem-Estar foram concebidas e impostas (não sem resistência) pelo Partido Comunista Francês, então aliado de Blum no governo da Frente Popular? Quantos portugueses sabem hoje que Blum traiu compromissos assumidos com a República Espanhola ao fechar a fronteira e proibir a entrega a Madrid de armas já pagas?

E a esperança de Obama, o que será? A do candidato que se comprometeu a intensificar a guerra de agressão contra o povo do Afeganistão, a do presidente eleito que escolheu já para seu chefe de gabinete na Casa Branca o sionista inflamado Rahm Emmanuel e vai manter como secretário da Defesa o falcão republicano Robert Graves?

A retórica de Manuel Alegre emergiu bem iluminada quando tentou dar resposta à pergunta: O que fazer?

O seu discurso sempre ambíguo ,adquiriu então uma sinuosidade permanente.Que disse de concreto?

Apelou aos trabalhadores para intensificarem a luta contra as politicas do PS responsáveis pelo desastre que por aí vai? Dirigiu-se às massas como sujeito da História?

Não.
Apelou sobretudo aos seus camaradas da esquerda do PS para que adiram a um projecto de mudança de contornos mais do que nebulosos porque assenta em esquemas eleitorais de fronteiras indefinidas.

Toda aquela retórica, temperada com morceaux de bravoure, e o vazio de propostas e até de ideias é transparente. Que alternativa ao drama socratiano sugere? Nenhuma.

Uma certeza: o «objectivo programático», a ser elaborado, seria, para além do jogo eleitoral, a humanização do capitalismo, ou seja uma impossibilidade absoluta.

Alguns analistas identificam neste discurso de muita parra e pouca uva um prólogo à criação de um novo partido.

Manuel Alegre foi peremptório ao incentivar a elaboração de «uma nova base programática».

«É preciso ir a votos» - afirmou. É preciso quebrar o tabu «de que a esquerda não quer ser poder».

A sua ambição de poder é transparente. Mas como imagina concretizá-la?

Não houve consenso na assistência e nos media sobre essa questão-chave.Aliás, transcorridos dois dias embrulhou-se num palavreado desconexo: «Falei de alternativa de poder, não disse que ia fazer um partido». E acrescentou: «Estes processos são assim, são feitos de ambiguidades e tensões, não posso dizer se vou fundar partido ou não. Isto é um processo, um caminho» (in Publico,16.12.2008).

Em momento algum deixou transparecer a ideia de que estaria prestes a romper com o Partido Socialista que representa na vice presidência da Assembleia da Republica.

É previsível que o folhetim Manuel Alegre prossiga nos próximos dias. O interesse absorvente dos media pela sua fala não surpreende.

A burguesia sempre sentiu fascínio pela retórica, sobretudo quando ela se caracteriza pela vacuidade de ideias.

Serpa, 16 de Dezembro de 2008
  • Miguel Urbano Rodrigues

Nota dos Editores: Na terça-feira, depois de recebido este artigo, Manuel Alegre foi entrevistado pela SIC Noticias a propósito das suas declarações no Fórum Democracia e Serviço Público . As opiniões que emitiu confirmam, na opinião de Miguel Urbano Rodrigues, aquilo que escreveu sobre o discurso do deputado do PS.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

DESPEDIDA CONDIGNA A BUSH:
JORNALISTA IRAQUIANO CHAMA-O DE CÃO E ATIRA-LHE
SAPATOS


O jornalista iraquiano Muntadhir Al-Zaidi, da Al-Bagdadyia TV , fez uma despedida condigna a Bush durante a visita surpresa do mesmo a Bagdad. Em meio a uma conferência de imprensa, cercado pelos brutamontes da segurança bushiana, Al-Zaidi teve a coragem de levantar-se e chamar de "cão" ao criminoso de guerra Bush, atirando-lhe sapatos a seguir (um grave insulto na cultura árabe).

Para ver a cena clique aqui .

Ver também Uruknet .

Assine a petição para libertar Muntadhir Al-Zaidi: http://www.ipetitions.com/petition/iwffomuntatharalzaidi/


Directiva do tempo de trabalho

Na sessão plenária do Parlamento Europeu iniciou-se a discussão do relatório Cercas, sobre a directiva do tempo de trabalho, tendo Ilda Figueiredo intervido no sentido de denunciar esta tentativa de gigantesco retrocesso nos direitos dos trabalhadores.

Intervenção de Ilda Figueiredo no PE sobre o Relatório Cercas sobre o tempo de trabalho



O objectivo central desta proposta do Conselho é desvalorizar o trabalho, aumentar a exploração e possibilitar mais ganhos ao patronato, mais lucros para os grupos económicos e financeiros, através de um horário semanal médio de 60 ou 65 horas, e de menores salários, através do conceito de "tempo inactivo" de trabalho. É um dos aspectos mais visíveis da exploração capitalista e põe em causa tudo o que têm afirmado sobre "conciliação entre vida profissional e vida familiar". A proposta é um retrocesso de cerca de cem anos nos direitos conquistados em duras lutas dos trabalhadores, que são pessoas, e não máquinas.

Por isso, defendemos a rejeição desta posição vergonhosa do Conselho Europeu e apelamos ao voto dos deputados e a que oiçam o protesto dos trabalhadores para evitar mais graves tensões sociais, mais retrocessos e o retorno a uma espécie de escravatura, em pleno século XXI.

Num momento de crise e desemprego, o que se impõe é a redução progressiva da jornada de trabalho, sem perda de salários, visando a criação de mais empregos com direitos. É preciso respeitar a dignidade de quem trabalha.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Luta do povo da Grécia


A maior greve geral da história da Grécia paralisou na quarta-feira aquele país. Os acontecimentos ali ocorridos nos últimos dias transcendem o quadro local. Os grandes media internacionais tentam minimizar o significado das gigantescas manifestações de Atenas confundindo o movimento popular de protesto com a explosão de violência anárquica desencadeada por grupos de jovens após o assassínio pela polícia de um estudante.

Mas a manipulação desinformativa não pode ocultar os factos.A greve fora prevista com larga antecedência e a resposta maciça do povo ao apelo das centrais sindicais e do Partido Comunista expressou-se em exigências concretas.

O povo grego condenou nas ruas a ofensiva contra o serviço de saúde e a criação de universidades privadas (proibidas pela lei), exigiu salários dignos para os trabalhadores, o encerramento das bases norte-americanas, a revogação das leis que restringem liberdades e penalizam o trabalho, e a ruptura com Schengen, condenou a fascização das polícias e dos serviços secretos, a militarização da União Europeia e a vassalagem perante os EUA.











As manifestações de Atenas e noutras cidades gregas são uma outra manifestação da crise económica e social que atinge presentemente toda a humanidade.

A onda de violência não é apoiada pelos Sindicatos nem pelo Partido Comunista, mas surgiu em resposta (compreensível) à politica reaccionária do governo de Kosta Karamanlis que, alinhando com outros da União Europeia, acode com milhares de milhões de euros aos banqueiros responsáveis enquanto desencadeia a repressão contra os trabalhadores.

A Grécia é nestes dias uma vitrina dramática da crise mundial. O seu povo, assumindo-se como sujeito, confirma com o seu exemplo, que é pelos caminhos da luta de massas e não através dos parlamentos controlados pelos partidos das classes dominantes que o capitalismo estremece, recua e pode ser derrotado.

No apelo à mobilização que dirigiu aos trabalhadores na ante-véspera da greve, Aleka Papariga, secretária-geral do Partido Comunista da Grécia, afirmou «sabemos como lutar em cada fase e pela via que seja mais adequada em cada momento. É por termos essa experiência que apoiamos toda a forma de luta que acelere, dinamize e dê força política ao movimento».Na Grécia estavam reunidas condições objectivas e subjectivas para que o povo desafiasse o Poder da burguesia nas ruas e numa greve geral que paralisou totalmente o país.O que semanas atrás parecia inatingível é hoje, segundo dirigentes da União Europeia, uma situação previsível. Pela força do povo, o governo de Kosta Karamanlis pode cair de um dia para outro.
  • EDITORES DE ODIÁRIO.INFO

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008


Guisado



Havia uma proposta, a votar na Assembleia da República, para que fosse suspenso o actual processo de avaliação dos professores. Naturalmente que, por força da força com que tal avaliação é contestada, nas escolas e nas ruas, pela esmagadora maioria dos docentes, tal proposta mereceria, por parte de toda a oposição, um voto favorável, viesse donde viesse tal proposta (desde que não fosse do PCP...) Voto ao qual seria de esperar que se juntassem, envergonhadamente embora, alguns elementos da bancada socialista – ou que, pelo menos, se registasse alguma abstenção que fizesse romper a maioria PS que apoia cegamente a política de Sócrates.

Assim não aconteceu. A proposta foi derrotada, a maioria manteve-se. À custa da larga ausência de deputados na sala, trinta e cinco, segundo consta. Mas, sobretudo, à custa da dezena de parlamentares do PSD que já haviam assinado o ponto e se pisgaram.

Vai daí, os media de serviço aproveitaram logo para meter no mesmo saco todos os deputados e declararem o escândalo. Era impossível esconder o número avantajado de votos assim «recolhidos» no PSD, numa contagem que acabou por ser favorável ao Governo. Mas poucos se detiveram a especular sobre as razões de tais e tão oportunas ausências. Por nossa parte, que gostamos pouco de especulações, não deixaremos de assinalar o facto. A avaliação da ministra Rodrigues, amparada na política de Sócrates, mantém-se com este favor concedido pelo PSD...

Um favor, é certo, concedido por baixo da mesa, mas mesmo assim um favor de monta, tão pesado como um pontapé de Yannick Jaló, que deu uns milhões ao Sporting, ou os disparos do Benfica nas redes do Marítimo, que o fizeram aceder ao primeiro lugar. Não nos parece que uma dezena de deputados dessem à sola só porque são irresponsáveis e tenham mais que fazer.

Num momento em que a política nacional embarcou na veloz nave das eleições, esta votação, que dá ao adversário o que ele pretende, revela-se como uma profissão de fé na política de direita, que vem em primeiro lugar, muito antes das rivalidades partidárias que sobem de tom assim que se avistam as urnas. Quem mostra mais sensatez, nesta direita que começa onde a esquerda acaba, é o CDS, que já avalizou a candidatura de Santana Lopes à Câmara de Lisboa e que acaba de se mostrar disponível para apoiar quem lho peça – PS ou PSD, tanto dá. O guisado eleitoralista começa a ferver. É que o tacho está ao lume.

  • Leandro Martins

Os inocentes



O mundo capitalista está em crise, mas Portugal safa-se. Esta é a mensagem que o Governo tem vindo a dar aos portugueses entre um magalhães e outro, com o próprio primeiro-ministro Sócrates a afirmar que em 2009 as famílias vão ter mais poder de compra, graças à descida da taxa de juro para a habitação e à quebra do preço do petróleo, pelo que não há motivos para outros sentimentos que não sejam de esperança e muita alegria por estarmos assim tão bem governados.

É claro que, como não há bela sem senão, logo havia de vir o Instituto Nacional de Estatística (INE) dizer que a economia portuguesa decresceu 0,1 por cento no terceiro trimestre do ano, mas nem isso abalou a fé de Vitalino Canas, porta-voz do PS, para quem os «números denotam um abrandamento já esperado, reflexo da crise internacional», pelo que continua a não haver crise. E tanto assim é que, questionado sobre a possibilidade de Portugal entrar em recessão técnica se a economia voltar a registar um crescimento negativo no último trimestre de 2008, Vitalino se escusou a fazer «conjecturas», considerando que o importante é transmitir confianças aos portugueses nas medidas de apoio às famílias e às empresas que o Governo tem vindo a tomar.

Também o seráfico Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio – o tal que ganha 250 mil euros por ano (18 vezes mais que o rendimento per capita nacional), e para quem o subsídio de desemprego sofre de elefantíase, ou seja é um exagero –, Vítor Constâncio, dizíamos, considera que a economia nacional não está, por esta altura, em recessão técnica, ao contrário do que acontece na Europa. Sempre prudente – excepto quando se trata de vislumbrar sintomas de fraude no sistema bancário, altura em que manifestamente sofre de miopia ou mesmo de vista grossa –, Constâncio adianta que o País pode vir a entrar em recessão ainda este ano, admite mesmo que 2009 pode não trazer «boas notícias», mas vai adiantando que, a ser assim, será porque a recessão vai ser «global», que é como quem diz que o Governo está inocente de tal desastre, e apesar de considerar difícil «fazer previsões a longo prazo» sempre acrescenta – para sossego das hostes e em benefício do inventário eleitoral – que em 2010 vai haver melhorias.

Já o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, parece desfasado do discurso oficial – ou teve o azar de lhe caber o papel de «polícia mau», sabe-se lá – e veio dizer o que toda a gente já sabe, ou seja, que «há uma coisa de que temos que estar certos: o ano que temos pela frente não vai ser fácil». Nem é preciso ser ministro para tal conclusão, mas adiante. Bem sintonizado está o Teixeira na «garantia» de que isto da crise, a haver, é coisa lá de fora, o que inocenta o Governo de qualquer pecado presente futuro ou passado, pelo que façam lá o favor de não confundir as coisas na hora do voto, PS há só um, o nosso e mais nenhum, e o que é nacional é bom, politicamente falando, é claro, que quanto ao resto estamos conversados, a Europa do capital toma conta de nós.

Postas as coisas neste pé, confesso que este Natal vai tudo corrido a lápis de pau e papel almaço. Não é por nada. É que com tantos magalhães e tanta fé no Governo se me esgotou a imaginação.

  • Anabela Fino
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