quarta-feira, 8 de abril de 2009




NATO e G20, maus sinais num cenário de crise



1- Os 60 anos da NATO não constituem motivo para comemoração. As seis décadas de existência desta organização político-militar configuram uma história de constantes ameaças à paz, de ingerências e agressões imperialistas, de crimes de guerra, de ofensas à soberania e ao direito dos povos à emancipação social e nacional.

Que Portugal esteja associado com o nome de Salazar à sua fundação e que - em confronto com a Constituição de Abril - sucessivos governos do regime democrático tenham continuado a prestar vassalagem a tal organização constituem motivo, não de festejo, mas de condenação nacional.

2- Esta organização é hoje, mais do que nunca, uma ameaça contra a humanidade. Num quadro de profunda crise do sistema capitalista, as ambições deste seu braço armado (nomeadamente o que se adivinha do “novo conceito estratégico” em discussão), os projectos de prosseguimento escalada militar a Leste, no Iraque, no Paquistão e no Afeganistão, o alargamento da acção no Atlântico Sul e em África, constituem outros tantos passos no sentido de uma ameaça global de enorme risco. A presença servil de José Sócrates na Cimeira da NATO, a sua imediata disponibilidade para ceder às exigências norte-americanas de participação acrescida na escalada em curso no Afeganistão constituem uma nova confirmação do crescente carácter anti-nacional de que a política de direita hoje se reveste.

3- O facto de esta Cimeira se ter realizado praticamente no seguimento da reunião do G20 tem a vantagem de associar com clareza as duas ameaças que hoje ensombram o conjunto da humanidade: a catástrofe económica, social e ambiental para a qual o capitalismo globalizado conduz, por um lado, e, por outro, o imenso e inumano potencial militar de que dispõe para tentar prosseguir e impor o seu domínio explorador, opressor e devastador. Uma organização tão insuspeita como a OCDE publicou nas vésperas da reunião do G20 uma caracterização duríssima da situação actual: “a economia mundial encontra-se no meio da mais profunda e sincronizada recessão do nosso tempo, provocada por uma crise financeira global e agravada por um colapso no comércio mundial”. “No conjunto dos 30 países membros da organização a previsão do aumento do desemprego é de mais 25 milhões de desempregados”.

4- As conclusões da reunião do G20, se traduzem alguma coisa, traduzem sobretudo as contradições internas entre as maiores potências capitalistas que o integram. Mas traduzem igualmente o esgotamento das soluções que têm a apresentar, a repetição das fórmulas e das soluções institucionais que são parte do problema, como o FMI, o cinismo com que esperam fazer cair os efeitos da crise sobre os povos e os trabalhadores em particular.

5- Uma outra organização igualmente insuspeita, a OXFAM, dirigiu ao G20 uma violenta denúncia: só os 175 mil milhões de dólares que o Governo dos EUA empregou no resgate da seguradora AIG representam uma vez e meia o total dos fundos que o conjunto dos países do G8 destinam anualmente ao apoio ao desenvolvimento. Os 8,42 biliões de dólares gastos no resgate de bancos e seguradoras falidas seriam suficientes para pôr fim à extrema pobreza durante 50 anos. Dificilmente poderia ter-se um retrato mais vivo da natureza actual do capitalismo.

6- É neste quadro de profunda crise, de gritantes injustiças, de fortíssimas ameaças que hoje nos encontramos. Os perigos são enormes. Mas a história é, em última instância, escrita pelos povos. Queiram ou não o imperialismo e a NATO.

  • Editores

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sobre Darwin e o darwinismoReflexão crítica de Álvaro Cunhal



Na sua introdução às notas sobre Darwin escritas por Álvaro Cunhal na cadeia em 1951, no ano das comemorações dos 200 anos de nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos da publicação do seu livro A Origem das Espécies, André Levy vem testemunhar que Álvaro Cunhal, “Além das qualidades exemplares como organizador e dirigente político, como teórico marxista-leninista e analista da situação concreta portuguesa, nas suas múltiplas vertentes (económica, social e política), exprimiu também as suas qualidades humanas através da produção artística, como são exemplos a sua arte plástica e escrita criativa.”

André Levy*
As notas sobre a obra de Darwin, republicadas no Avante!, são mais uma pequena ilustração de um facto incontestável: Álvaro Cunhal foi um notável intelectual. Além das qualidades exemplares como organizador e dirigente político, como teórico marxista-leninista e analista da situação concreta portuguesa, nas suas múltiplas vertentes (económica, social e política), exprimiu também as suas qualidades humanas através da produção artística, como são exemplos a sua arte plástica e escrita criativa. Apesar das suas raízes familiares burguesas e sua formação académica em Direito, enquanto militante do PCP (a partir de 1931, com 17 anos) aprofundou uma ligação estreita com os trabalhadores e o povo português, condição indispensável para conhecer as carências e aspirações mais profundas do nosso povo, o que veio a justificar inteiramente a sua auto-caracterização, em 1950, durante o seu julgamento perante o tribunal plenário, como «filho adoptivo da classe operária».


segunda-feira, 6 de abril de 2009


As dores do PS
Dias a fio, em jeito de confissão antecipada de uma derrota anunciada, como se pressentisse já onde mais lhe dói, PS e respectivo candidato insistiram na professoral argumentação em torno do que designam de desnacionalização do voto para as europeias. E, se na boca destes, a ideia seria de que em Junho se abriria um parêntesis para onde se varreria tudo o que hoje verdadeiramente pesa na vida dos portugueses, bem se pode dizer que pela boca acabará por morrer o peixe. Mesmo que à pressa venham agora desdizer o que até domingo haviam dito.

Percebe-se que aqueles que se apressaram a desvalorizar os resultados dos referendos na Irlanda ou em França sobre o Tratado Europeu com base em que o que aí foi julgado pelos eleitores foi, não o modelo europeu e o Tratado, mas sim as políticas internas desses mesmos países, vejam agora o prenúncio de uma derrota. Com a curiosa particularidade de, a confirmar-se, essa derrota constituir em si mesmo, pela boca dos próprios, seja à luz da velha ou da nova argumentação, uma clara condenação à política do Governo e às suas consequências.

Sobrará sempre a legitima suspeita de que a cambalhota do discurso se destine a atenuar o mistério sobre as razões que levavam quem, querendo sacudir qualquer relação entre os resultados de 7 de Junho e a sua acção no Governo, tem no terreno um uso despudorado de meios e recursos públicos destinados a comprar votos e a manter dependências de que a vertiginosa passagem de ministros, secretários de Estado e governadores civis carregados de promessas e alguns cheques é testemunho.

De um modo ou de outro, só ganha actualidade e importância, fazendo mossa onde mais lhes doerá, insistir na relação entre o sentido do voto em 7 de Junho e o juízo concreto que os eleitores não deixarão de fazer em função da situação, problemas e inquietações que resultam da política do Governo, da insistência de que por esta mesma razão 7 de Junho é uma oportunidade, não apenas para nesse momento penalizar esta política, mas sobretudo para criar condições para essa mesma condenação ser confirmada nas legislativas. Ou seja, mais do que um «sinal» difuso, os resultados de 7 de Junho têm de ser uma primeira expressão de uma clara opção de ruptura com a política de direita que o país reclama.
  • Jorge Cordeiro


quinta-feira, 2 de abril de 2009


Critérios...


A CDU apresentou, na segunda-feira passada, a sua lista para as eleições do Parlamento Europeu. Foi a primeira das forças concorrentes a fazê-lo – e já assim acontecera em relação ao anúncio do primeiro nome da lista, Ilda Figueiredo.Num caso e noutro, os media dominantes primaram pelo (quase) silenciamento – à semelhança do que têm vindo a fazer no que respeita à intensa intervenção de Ilda Figueiredo.

Já no que respeita aos primeiros candidatos do BE e do PS, esses media têm-lhes dedicado tempo e espaço à labúrdia. Mostram os factos que, por parte dos media, as notícias sobre a intervenção dos três cabeças de lista até agora anunciados, assenta no pragmatíssimo critério de ignorar a candidata da CDU (e as inúmeras iniciativas em que participa) e de anunciar com luzido foguetório eleitoralista tudo o que fazem, e sobretudo o que não fazem, os candidatos do BE e do PS. Ou seja: silenciamento dos que, lá como cá, são os que mais trabalham; e projecção às alturas dos que, lá como cá, são os que mais descansam...

Mas o critério vai mais longe: entre esses jornais que silenciam cirurgicamente a actividade da candidata da CDU, alguns há que, provavelmente para preencherem o espaço previsto para as campanhas eleitorais, se entregam à curiosa tarefa de noticiar o não-acontecido... É o caso, por exemplo, do Diário de Notícias que, há dias, gastou quase meia página a informar que o CDS/PP apresentará o seu cabeça de lista... na Páscoa – e que, reincidente, divulgou, na sua edição de 31 de Março, com destaque de primeira página, a relevante notícia segundo a qual o nome de uma determinada pessoa «ainda está na short-list do PSD»...

Foi este mesmo DN, registe-se, que nem uma linha dedicou à apresentação da candidatura de Ilda Figueiredo e que, de então para cá, dedicou uma dúzia de linhas, se tanto, às dezenas de iniciativas protagonizadas pela candidata da CDU.O mesmo DN, aliás, que acaba de informar – também com chamada primeira página – que «Ferreira Torres já arrancou com a campanha» - deixando-nos na dúvida sobre quem é que, de facto, «arrancou com a campanha»: se Ferreira Torres, se o DN, se ambos...
  • José Casanova


quarta-feira, 1 de abril de 2009

segunda-feira, 30 de março de 2009


CES decepcionada com líderes europeus


A Confederação Europeia de Sindicatos acusou os governos de não estarem «preocupados com o desemprego», condenando a sua ausência na cimeira sobre o emprego na União Europeia.

Em comunicado divulgado na segunda-feira, John Monks, secretário-geral da Confederação, considerou que esta decisão é um «mau sinal para os cidadãos e trabalhadores europeus» e mostrou-se «decepcionado».

A reunião extraordinária, convocada pela Comissão Europeia e pela Presidência Checa para 7 de Maio, em Praga, para debater o desemprego em cada Estado-membro, previa a participação dos chefes de Estado da União Europeia, bem como de outros representantes sociais. No entanto, na sua cimeira de dia 21, decidiram não participar, dadas as dificuldades em tomar novas medidas de apoio ao emprego.

A Confederação disse que vai comparecer na reunião reduzida, «em defesa dos interesses dos trabalhadores» e considerou que esta atitude dos governos vai «reforçar a participação nas mobilizações sindicais» no encontro de 7 Maio, estando já convocadas manifestações em Madrid, Bruxelas e Praga para 14 e 16 de Maio.

sexta-feira, 27 de março de 2009



«Sindicalistas»



O diligente Sol seguiu o mote dado por Sócrates na ofensiva contra a CGTP e, pegando nas declarações deste sobre a «instrumentalização» e o «sindicalismo livre de tutela partidária», fez o seu número tendo João Proença como artista convidado. Foi divertido de ler.

Preocupa-os e incomoda-os a influência do PCP no movimento sindical – influência real, de facto. E a preocupação e o incómodo são tanto maiores quanto, como muito bem sabem, essa influência resulta de décadas de uma intervenção singular dos comunistas na luta pela defesa dos interesses dos trabalhadores. Assim, à influência e à intervenção sindical dos comunistas – caracterizada por um profundo respeito pela democracia interna do movimento sindical – chamam «tutela partidária».

Coisa esta que não existiria na UGT, a qual «nunca será correia de transmissão do PS» - como garante Proença e o Sol confirma.Neste caso, reconheça-se-lhes alguma razão: como é sabido, a UGT foi criada pelo PS, PSD e CDS - e pelos milhões vindos dos EUA, da Grã-Bretanha, da Alemanha... - com o triplo objectivo de liquidar a CGTP, acabar com a influência do PCP no movimento sindical e apoiar a contra-revolução.
Por isso tem sido, desde que nasceu, uma verdadeira correia de transmissão, não apenas do PS mas da política de direita ao serviço dos interesses do grande capital.

A actividade sindical – entendida como intervenção na organização dos trabalhadores para a defesa dos seus interesses e direitos – exige, sempre, grande firmeza e coragem.
Foi assim nos tempos em que ser sindicalista exigia, para além da firmeza na luta contra os exploradores, a coragem de enfrentar a repressão fascista - e já nesses tempos os proenças faziam «sindicalismo» nos «sindicatos» do regime...É assim nos tempos actuais, em que só com muita coragem e firmeza é possível fazer frente à política de classe levada a cabo pelos homens de mão do grande capital que, há 33 anos, proliferam nos governos, na UGT e nos média dominantes.«Mal de nós se o Governo for gerido pela rua» - gemeu o chefe da UGT, quando da manifestação do dia 13, apavorado com a multidão de trabalhadores na rua. A confirmar que, enquanto «sindicalista», o lugar de Proença é no anúncio da Antena 1 sobre os malefícios das manifestações...
  • José Casanova


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