quarta-feira, 15 de abril de 2009

ESTAMOS EM ABRIL
LEMBREI-ME DO CARLOS

Os nomes e os bois

Uma das dificuldades da luta política tem a ver com as palavras.
Para os políticos burgueses as palavras, os programas eleitorais, os discursos, as entrevistas, as promessas públicas são outros tantos meios, não de dizer o que querem e o que propõem, mas de o ocultar cuidadosamente. As razões são evidentes: se alguma vez lhes fugisse a boca para a verdade os seus eleitores reduzir-se-iam ao pequeno punhado de criaturas cujos interesses defendem.

Uma das palavras mais proferidas pelos trabalhadores ao longo dos últimos quatro anos é certamente a palavra mentiroso. É a altura de chamarmos a atenção para ela.

Porque uma questão que se deve colocar neste ano eleitoral é se o povo vai voltar a ter de a gritar nos próximos tempos. Se isso voltar a suceder é mau sinal. Quer dizer que uma parte dos eleitores se deixou novamente enganar.

Num dos seus textos sobre a situação em França Marx observa: «a questão não é se tal ou tal personagem traiu o povo. A questão é porque é que o povo aceitou ser traído por esse personagem». Recrudescem os esforços por parte do PS/Sócrates para voltar a vender como lebre «anti-neoliberal» o desastroso gato neo-liberal que durante quatro anos pôs no prato do povo português. Ou para o PSD se apresentar como «alternativa». Ou para outros presumirem de «forças dirigentes da esquerda». Ou para outros ressurgirem da sua hibernação quadrienal com a finalidade de sempre, a de confundir alguns eleitores com a foice e martelo que usurpam.

Por isso nenhum trabalhador que endereçou a palavra mentiroso se deveria esquecer não apenas de a quem a dirigiu, mas a que política e forma de agir a dirigiu.

Seria mais fácil se cada eleitor identificasse por detrás de cada palavra e de cada sigla as palavras certas. Se onde alguns dizem «governabilidade» identificasse prepotência e arbitrariedade. Se onde dizem «consciência social» identificasse exploração e sopa dos pobres. Se onde dizem «europa» identificasse multinacionais e subalternização nacional.
Se onde vem PS, PSD, CDS/PP identificasse apenas ppd (ou seja, partidos da política de direita).

Se onde vem «governo actual» identificasse comissão eleitoral do PS.

  • Filipe Diniz



terça-feira, 14 de abril de 2009

ESTAMOS EM ABRIL
LEMBREI-ME DO SAMUEL


segunda-feira, 13 de abril de 2009

O Obama é do Soares


«Um mundo em mudança» é o título de um livro no qual Mário Soares reincide na publicação de alguns dos artigos que tem vindo a dar à luz em vários jornais – um livro sobre o qual deu caudalosa e garrida entrevista ao Semanário Económico e para cuja capa chamou Obama, mais o seu sorriso, a par do foto também sorridente do autor reincidente.

A «mudança», obviamente, é Obama e a «nova era» por este iniciada: «nova era» que, assim espera e confia Soares, virá salvar o capitalismo da mais grave e profunda de todas as suas crises.

«Salvar», não, corrige o entrevistado: «o capitalismo não tem que ser salvo», porque, se é verdade que «o capitalismo de casino está morto, o capitalismo em geral não está», graças a Deus.

Assim sendo, o capitalismo tem é que «ser corrigido com princípios éticos», após o que ficará como novo e pronto para as curvas, ou seja, pronto para explorar eticamente – que é a forma democrática de explorar.
Sobretudo, adverte, e essa é, para ele, a questão essencial, não venham para cá com ideias de «voltar ao comunismo puro e duro»: o comunismo morreu, implodiu: «voltar às ideias de Marx», sim senhor, «mas não lido pela cartilha leninista, estalinista ou maoista» - porque, explica Soares, «Marx e Engels eram socialistas» e, por isso, «estamos a voltar a algumas das suas ideias, sobretudo quanto à análise que fizeram do capitalismo». Análise que, de acordo com a peculiar leitura que dela faz o marxista Soares, conduz à exigência de que «o capitalismo seja corrigido»…

Por tudo isto, é em Obama – outro marxista - que ele, Soares, deposita todas as suas esperanças de correcção ética do capitalismo.

E tão longe leva a sua fé em Obama que o trata como se fosse seu - seu e de mais ninguém. Daí a irritação que lhe causam os elogios despejados por Durão Barroso sobre o Presidente dos EUA - esse Barroso da Cimeira da Vergonha, que foi só elogios e sorrisos para o Bush, não tem legitimidade para vir, agora, elogiar e sorrir para Obama.

Legitimidade tem, isso sim, Soares, que sempre criticou o Bush e sempre elogiou quem o merecia: agora, Obama e, antes, Clinton, por exemplo. Para não falar do Carlucci...


  • José Casanova






domingo, 12 de abril de 2009


ESTAMOS EM ABRIL LEMBREI-ME DO ADRIANO


quarta-feira, 8 de abril de 2009




NATO e G20, maus sinais num cenário de crise



1- Os 60 anos da NATO não constituem motivo para comemoração. As seis décadas de existência desta organização político-militar configuram uma história de constantes ameaças à paz, de ingerências e agressões imperialistas, de crimes de guerra, de ofensas à soberania e ao direito dos povos à emancipação social e nacional.

Que Portugal esteja associado com o nome de Salazar à sua fundação e que - em confronto com a Constituição de Abril - sucessivos governos do regime democrático tenham continuado a prestar vassalagem a tal organização constituem motivo, não de festejo, mas de condenação nacional.

2- Esta organização é hoje, mais do que nunca, uma ameaça contra a humanidade. Num quadro de profunda crise do sistema capitalista, as ambições deste seu braço armado (nomeadamente o que se adivinha do “novo conceito estratégico” em discussão), os projectos de prosseguimento escalada militar a Leste, no Iraque, no Paquistão e no Afeganistão, o alargamento da acção no Atlântico Sul e em África, constituem outros tantos passos no sentido de uma ameaça global de enorme risco. A presença servil de José Sócrates na Cimeira da NATO, a sua imediata disponibilidade para ceder às exigências norte-americanas de participação acrescida na escalada em curso no Afeganistão constituem uma nova confirmação do crescente carácter anti-nacional de que a política de direita hoje se reveste.

3- O facto de esta Cimeira se ter realizado praticamente no seguimento da reunião do G20 tem a vantagem de associar com clareza as duas ameaças que hoje ensombram o conjunto da humanidade: a catástrofe económica, social e ambiental para a qual o capitalismo globalizado conduz, por um lado, e, por outro, o imenso e inumano potencial militar de que dispõe para tentar prosseguir e impor o seu domínio explorador, opressor e devastador. Uma organização tão insuspeita como a OCDE publicou nas vésperas da reunião do G20 uma caracterização duríssima da situação actual: “a economia mundial encontra-se no meio da mais profunda e sincronizada recessão do nosso tempo, provocada por uma crise financeira global e agravada por um colapso no comércio mundial”. “No conjunto dos 30 países membros da organização a previsão do aumento do desemprego é de mais 25 milhões de desempregados”.

4- As conclusões da reunião do G20, se traduzem alguma coisa, traduzem sobretudo as contradições internas entre as maiores potências capitalistas que o integram. Mas traduzem igualmente o esgotamento das soluções que têm a apresentar, a repetição das fórmulas e das soluções institucionais que são parte do problema, como o FMI, o cinismo com que esperam fazer cair os efeitos da crise sobre os povos e os trabalhadores em particular.

5- Uma outra organização igualmente insuspeita, a OXFAM, dirigiu ao G20 uma violenta denúncia: só os 175 mil milhões de dólares que o Governo dos EUA empregou no resgate da seguradora AIG representam uma vez e meia o total dos fundos que o conjunto dos países do G8 destinam anualmente ao apoio ao desenvolvimento. Os 8,42 biliões de dólares gastos no resgate de bancos e seguradoras falidas seriam suficientes para pôr fim à extrema pobreza durante 50 anos. Dificilmente poderia ter-se um retrato mais vivo da natureza actual do capitalismo.

6- É neste quadro de profunda crise, de gritantes injustiças, de fortíssimas ameaças que hoje nos encontramos. Os perigos são enormes. Mas a história é, em última instância, escrita pelos povos. Queiram ou não o imperialismo e a NATO.

  • Editores

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sobre Darwin e o darwinismoReflexão crítica de Álvaro Cunhal



Na sua introdução às notas sobre Darwin escritas por Álvaro Cunhal na cadeia em 1951, no ano das comemorações dos 200 anos de nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos da publicação do seu livro A Origem das Espécies, André Levy vem testemunhar que Álvaro Cunhal, “Além das qualidades exemplares como organizador e dirigente político, como teórico marxista-leninista e analista da situação concreta portuguesa, nas suas múltiplas vertentes (económica, social e política), exprimiu também as suas qualidades humanas através da produção artística, como são exemplos a sua arte plástica e escrita criativa.”

André Levy*
As notas sobre a obra de Darwin, republicadas no Avante!, são mais uma pequena ilustração de um facto incontestável: Álvaro Cunhal foi um notável intelectual. Além das qualidades exemplares como organizador e dirigente político, como teórico marxista-leninista e analista da situação concreta portuguesa, nas suas múltiplas vertentes (económica, social e política), exprimiu também as suas qualidades humanas através da produção artística, como são exemplos a sua arte plástica e escrita criativa. Apesar das suas raízes familiares burguesas e sua formação académica em Direito, enquanto militante do PCP (a partir de 1931, com 17 anos) aprofundou uma ligação estreita com os trabalhadores e o povo português, condição indispensável para conhecer as carências e aspirações mais profundas do nosso povo, o que veio a justificar inteiramente a sua auto-caracterização, em 1950, durante o seu julgamento perante o tribunal plenário, como «filho adoptivo da classe operária».


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