ESTAMOS EM ABRIL
LEMBREI-ME MANUEL FREIRE
sábado, 18 de abril de 2009
Um notável dirigente político
O exemplo da «Praça de Jorna»
Para além dos notáveis romances e contos que escreveu, Soeiro Pereira Gomes produziu também textos políticos, em forma de cartas, folhetos ou artigos.
O exemplo da «Praça de Jorna»
Para além dos notáveis romances e contos que escreveu, Soeiro Pereira Gomes produziu também textos políticos, em forma de cartas, folhetos ou artigos.
As questões abordadas eram variadas, como o foram as tarefas partidárias que desempenhou, particularmente na clandestinidade: o papel dos intelectuais na luta antifascista, a construção da unidade nacional contra a ditadura ou a utilização das praças de jorna para a conquista de direitos e para a luta pelo derrubamento do fascismo.
Neste último caso, escreveu em Agosto de 1946 Praça de Jorna. Nesse folheto, começa por clarificar o que eram as praças de jorna: «um mercado de mão-de-obra, a que vão assalariados e proprietários rurais (ou os seus delegados: os capatazes), e em que os primeiros, como vendedores, oferecem a sua força de trabalho, e os segundos, como compradores, oferecem o salário ou jorna, que é a paga de um dia de trabalho.»
Soeiro Pereira Gomes, que trabalhava então com os camponeses e operários agrícolas do Alto Ribatejo, rejeita a visão de alguns, segundo os quais as praças eram, ainda, «restos do antigo mercado de escravos e, portanto, desumanas e inteiramente condenáveis». Afirmando, pelo contrário, que estas eram instituições capitalistas, realçava que as praças eram um processo mais «progressivo e mais útil de contratar trabalho do que o processo individual de contrato em cada dos patrões ou dos camponeses». E insistia mesmo na ideia de que, nas condições do fascismo, poderiam ser úteis para a unidade camponesa e mesmo para a sua libertação do jugo fascista.
Que assim é provava-o, por exemplo, a resistência constante que o patronato opunha ao seu regular funcionamento.
«Dizemos apenas que a “praça” é útil à unidade dos camponeses; e não simplesmente à subida das jornas, porque a “praça” não representa apenas um campo de luta por melhores jornas, mas também por outras condições de trabalho: e, além disso, porque é somente através da sua unidade que os camponeses conseguirão melhorar essas condições e o seu nível de vida.» Se é verdade que «a união faz a força», a praça de jorna comprova este ditado, afirmava Soeiro Pereira Gomes: «Naquela, o trabalhador sente a força da união dos seus companheiros; levanta a voz; teima; defende os seus direitos. Ao passo que, no pátio do patrão ou na sua casa, porque está isolado, o trabalhador sente-se fraco.»
No entanto, prosseguia, «não basta lançar a palavra de ordem de formação de novas praças e defesa das que existem. É preciso organizar as praças de jornas para a luta». Organização que seria assegurada pela criação de comissões de praça, que tratariam de «todas as condições de trabalho dos camponeses em praça»: ajuste de salários ou jornas; modo de execução de certos trabalhos; horário de trabalho e de sesta... Para desempenhar bem as suas funções, a comissão deveria manter um «estreito contacto com as massas camponesas, a fim de saber a tempo as suas disposições e garantir o seu apoio».
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Uma ajuda desinteressada
O arquivo de opiniões do PS encerra tesouros. Uns estão um pouco gastos, porque acaba por cansar deparar com as contradições de sucessivas gerações de troca-tintas.
Mas outros são pérolas. Por exemplo: essa luminária que se chama Augusto Santos Silva produziu (Público, 8-9-2002) a afirmação, lapidar e inesquecível, de que «o PS não deve afirmar-se nem pró nem contra o capitalismo: foi nessa recusa que se formou o socialismo democrático».
Esta profissão de fé no mais desavergonhado oportunismo deve estar inscrita em letras de ouro na sede do Rato. Foi com esta ideologia e este ideólogo que o PS deu os passos que faltavam no terreno da política de direita. Nunca desde o 25 de Abril o capitalismo encontrara um partido que, não sendo «nem pró nem contra o capitalismo», executasse com tão canina obstinação as políticas do grande capital.
Afundou o país na crise, e agora que ela se insere na «mais profunda e sincronizada crise financeira do nosso tempo» e com o comércio mundial «em queda livre», nas palavras da insuspeita OCDE, os propagandistas PS estão algo descalços.
Mas, se o pior da crise ainda está para vir, as suas consequências políticas (naturalmente contraditórias) também estão em desenvolvimento, e irão decerto muito fundo. Uma sondagem divulgada na passada semana nos EUA deixou alguma gente alarmada. Apenas 53% dos norte-americanos consideram o capitalismo superior ao socialismo. Nos que têm idade inferior a 30 anos essa percentagem baixa para 37%. Nessa mesma faixa etária 30% consideram o socialismo superior ao capitalismo.
O choque foi violento. Vários comentadores (citados pelo New York Times) divergiram. Uns opinam que os inquiridos não sabem do que estão a falar. Outros lastimam as fraquezas do sistema de ensino que permite tais devaneios. Outros acham que a culpa é dos conservadores, que chamam «socialista» tudo o que não encaixa nos interesses do grande capital. Alguns, por estranho que pareça, interrogam-se se o capitalismo não terá perdido um pouco do seu encanto com o colapso da economia. Em resumo, estão confusos.
Não poderíamos, com algum egoísmo nacional, enviar em seu auxílio o «socialista» Santos Silva?
- Filipe Diniz
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Milhões
Arriscamo-nos a desagradar ao doutor Vítor Constâncio se dissermos que por aí andam salários obscenamente luxuosos. O governador do Banco de Portugal, confrontado certa vez com o chorudo vencimento que recebe por um trabalho aliás pouco qualificado e cujos resultados provam que não sabia o que deveria saber (ou, sabendo-o, faz vista grossa), acusou de demagógicas as «insinuações» de que arrecadava para si muito dinheiro em comparação com os seus compatriotas. Ao longo dos últimos tempos – a crise tem a sua parte na responsabilidade de tais revelações – ficou o público a saber, sem que fossem os comunistas a divulgá-lo mais amplamente, que abundam, neste País de milhões de pobres e de centenas de milhares com fome, que há gente por aí que se farta de ganhar.
Arriscamo-nos a desagradar ao doutor Vítor Constâncio se dissermos que por aí andam salários obscenamente luxuosos. O governador do Banco de Portugal, confrontado certa vez com o chorudo vencimento que recebe por um trabalho aliás pouco qualificado e cujos resultados provam que não sabia o que deveria saber (ou, sabendo-o, faz vista grossa), acusou de demagógicas as «insinuações» de que arrecadava para si muito dinheiro em comparação com os seus compatriotas. Ao longo dos últimos tempos – a crise tem a sua parte na responsabilidade de tais revelações – ficou o público a saber, sem que fossem os comunistas a divulgá-lo mais amplamente, que abundam, neste País de milhões de pobres e de centenas de milhares com fome, que há gente por aí que se farta de ganhar.
Anteontem, o accionista do BPN, Joaquim Coimbra, ouvido na Comissão de Inquérito da Assembleia da República, revelou que Miguel Cadilhe, presidente do mesmo banco, aceitara entrar para o grupo ganhar um salário de um milhão de euros por ano. Os restantes administradores, coitados, só auferiam 700 mil euros... Isto durante um período de foi de final de Junho até à data da «nacionalização»...
Escrevemos «nacionalização» entre aspas porque, de facto, do que se tratou, foi de, mais uma vez, o Estado arcar com os prejuízos originados pelas manigâncias de banqueiros destes. Mas haverá outra sorte de banqueiros? Mas será o capitalismo um sistema onde impera a honestidade, manchada embora por algumas nódoas?
O certo é que o capitalismo é o menos democrático de todos os sistemas, onde são escolhidos e eleitos, em função do dinheiro possuído por accionistas, os que mandam na economia e... nos governos.
O certo é que o capitalismo é o menos democrático de todos os sistemas, onde são escolhidos e eleitos, em função do dinheiro possuído por accionistas, os que mandam na economia e... nos governos.
A simbiose entre o capital e o poder é tal que é vê-los saltar da banca para os governos, e dos governos para os conselhos de administração. Por facilidade, citemos os exemplos de Jorge Coelho, que salta da ponte de Entre-os-Rios para a Motaengil. Ou de Ferreira do Amaral, que de ministro das Obras Públicas, assina contrato com a Lusoponte e acaba administrador da mesma. Os exemplos são muitos. Como no tempo do fascismo.
- Leandro Martins
Subscrever:
Mensagens (Atom)
