domingo, 3 de maio de 2009


E não se pode trincá-lo?

Quem tem um Magalhães tem tudo, quem não tem Magalhães não tem nada. Melhor dizendo, não é nada. É assim uma espécie de parasita, de marginal, de zombi que só por acidente será capaz de alinhavar duas frases seguidas, juntar um par de números ou olhar para o mundo com compreensão distinta da de boi para palácio, como soe dizer-se. Essa é pelo menos a conclusão que se pode tirar da entusiástica intervenção do expert em tecnologias da informação, autor e homem de negócios canadiano Don Tapscott, que a semana passada esteve em Portugal a participar no Fórum Mundial das Telecomunicações.

Tapscott ficou maravilhado por verificar que as escolas portuguesas – ou pelo menos as salas de aula que teve oportunidade de visitar, o que não é exactamente a mesma coisa – estão em sintonia com as suas teses, pelo que não hesita em dizer que Portugal está bem lançado no caminho do futuro.

Lançado devia estar Tapscott, e não seria pouco, quando no supra citado Fórum, segundo reza o JN de segunda-feira, 27, afirmou que o «programa Magalhães é a mais sofisticada e avançada implementação das tecnologias de informação em educação no Mundo» e que «não há nada mais importante para um país, neste momento da História, do que dar às suas crianças o seu direito de nascença que é ter acesso a um novo meio de comunicação que melhora a sua aprendizagem e experiência humana (sublinhados nossos)».

Esqueçam as botinhas de lã, os casaquinhos, as fraldas, o leite, as papas, a sopa, a casa confortável, as vacinas, o pediatra, os brinquedos, o pai e a mãe, o avô e a avó; tudo isso não passa de lixo arqueológico a cair da tripeça. O que as crianças precisam de ter garantido à nascença é um Magalhães (a JP Sá Couto agradece...) para garantir o futuro.

E já agora, se tiverem o azar de fazer parte dos mais de dois milhões de portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza, não desesperem. Com um pouco mais de fome e até o Magalhães parece um menu light da McDonald's.

Para que conste, não tenho nada contra as tecnologias da informação e acho que a existência de computadores na escola é evidentemente uma mais-valia. Mas se é para tamanha demagogia, mais valia meterem o Magalhães no saco.
  • Anabela Fino

quinta-feira, 30 de abril de 2009


UGT na rua

À semelhança do ano passado, a UGT vai aproveitar o 1.º de Maio para regressar à rua - mas almoçando primeiro, que não temos ali gente que lute de barriga vazia. Para tal, um convite aos associados recordava que «as inscrições para o almoço devem ser feitas, impreterivelmente, até às 17.00 do dia 24 de Abril, indicando o número de acompanhantes (sem limite), para que seja possível calcular o número de presenças e organizar tudo em conformidade».

«Em conformidade» significa contar os talheres a pôr na mesa do repasto e providenciar a confecção, problema que, naturalmente, só poderá decidir-se com uma ideia antecipada dos convivas a acolher. É essa, aliás, a única e grande incógnita da operação, agravada pela prodigalidade de convidar acompanhantes «sem limite» - isto, obviamente, não vá o diabo tecê-las e não haver sócios que cheguem para compor a mesa.

Seja como for, o que de certeza não será problema é o dinheiro a pagar pela festança, dado serem os três Sindicatos dos Bancários a pagar a conta. Se não é uma atitude «à bancário», será pelo menos um gesto à banqueiro, valha-lhes isso.

Acrescente-se que o almoço terá lugar nas instalações do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas (SBSI), «onde aos sócios do SBSI se juntará cerca de um milhar de colegas dos Sindicatos do Norte e do Centro, e ainda dos Sindicatos dos Seguros», posto o que marcharão a caminho dos Restauradores, ajudando simultaneamente a digestão e a luta contra a crise.

Supomos que, nestas contas, os famosos «acompanhantes» valerão tanto como os sócios, pelo menos a fazer número, que é o que importa. E agora digam lá que a UGT não é mesmo um brinquinho, nestes banhos democráticos.

Com tudo isto, a supracitada proclama que «Vamos encher os Restauradores!», onde «a Central Sindical e os Sindicatos nela filiados vão pugnar por medidas de combate à crise e reivindicar a manutenção do emprego, o reforço da negociação colectiva e o fim dos off-shores».

Já é alguma coisa, apesar de as «medidas de combate» por que a UGT diz «pugnar» não terem, como de costume, qualquer medida que se veja.

Seja como for, é curioso este «desfilar na rua» da UGT durante as comemorações do 1.º de Maio, quando já institucionalizara na data, com décadas de prática contínua, umas festividades saracoteadas por «estrelas» pimba contratadas a peso de ouro e animando uma espécie de picnicão ali para os lados da Torre de Belém onde, só por desvairado acaso, as reivindicações laborais ou as lutas sindicais obtinham alguma referência.

Parece que, de repente, a UGT descobriu nas comemorações do 1.º de Maio um tempo de luta que se esforçava por denegrir nos gigantescos desfiles da CGTP-IN, aos quais há décadas contrapunha os tais bailaricos pimba tocados a petisco a que chamava «a festa dos trabalhadores».

Agora já paga almoços aos milhares, para arrebanhar um desfile que pareça uma manifestação.

Manifestamente, neste tempo de crise a UGT quer mostrar-se na rua a lutar pelos trabalhadores.Deve ser para entrar mais facilmente no bolso do patronato. É que com a crise que aí vai, já não será tão simples fazê-lo apenas no recato dos gabinetes.
  • Henrique Custódio



domingo, 26 de abril de 2009

Liberdades de classe




Agora que – com o BE a servir de lebre e a dar as deixas – a necessidade eleitoral leva o PS a mexer na questão (ou, muito provavelmente, a fingir que mexe), a legislação fiscal suscita novamente gritaria do lado da direita”. Filipe Diniz - 26.04.09


Agora que – com o BE a servir de lebre e a dar as deixas – a necessidade eleitoral leva o PS a mexer na questão (ou, muito provavelmente, a fingir que mexe), a legislação fiscal suscita novamente gritaria do lado da direita.
Gritaria que, afinal, não deveria passar de um pró-forma, porque os interesses em causa conhecem de ginjeira o PS.

Sabem, como nós sabemos e o camarada Honório Novo denunciou na AR, que o off-shore da Madeira tem sido intocável para o PS; que o PS tem chumbado sucessivas propostas do PCP no sentido da transparência e informação dos vencimentos individuais dos administradores das empresas cotadas e outras; que o PS tem rejeitado propostas do PCP no sentido do reforço do quadro sancionatório do crime económico; que o PS rejeitou que as burlas e fraudes bancárias (que os casos do BCP e do BPN colocaram mais do que nunca na ordem do dia) passassem a ser punidas com prisão tal como o PCP propõe; que o PS tem rejeitado ao longo dos anos propostas do PCP no sentido da derrogação do sigilo bancário, no sentido da alteração da Lei Geral Tributária permitindo o acesso condicionado da Administração Fiscal às contas bancárias.

O certo é que, pelo sim pelo não, os opinadores de direita lançam o seu fogo de barragem.

Em nome de quê? Pois, como não podia deixar de ser, em nome da «liberdade». Um deles, por exemplo, fala da ameaça da destruição pelo Estado das «mais básicas liberdades».

E o que são essas básicas liberdades? É a liberdade de organização dos trabalhadores nas empresas, hoje quase inteiramente reprimida e negada? É a liberdade de exercer direitos fundamentais, como o direito à greve? É a liberdade sindical? É a liberdade de opinião, que os grandes meios de comunicação social limitam à que agrada aos seus donos, e que Sócrates odeia e persegue judicialmente? É a liberdade de reunião, de associação, de difusão pública das próprias ideias, cada vez mais coarctada no que diz respeito aos trabalhadores e às forças democráticas?

As liberdades que fazem correr estes senhores são outras: a liberdade de enriquecer seja por que meio for, a liberdade de se apropriar da riqueza socialmente criada, a liberdade das classes dominantes exercerem o seu domínio com absoluta impunidade. Liberdades de classe, que são opressão e exploração das classes (ainda) dominadas.

Este texto foi publicado no Avante nº 1.847 de 23 de Abril de 2009

sábado, 25 de abril de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ESTAMOS EM ABRIL
LEMBREI-ME DO FERNANDO TORDO



Justiça, para que te quero?


Antes de chegar ao fim do seu mandato o Governo vai anunciar mais uns quantos casos de «sucesso» entre os quais, não duvidamos, se incluirá a redução drástica dos processos pendentes em tribunais. Ouviremos então os discursos do costume sobre a genialidade das medidas tomadas, cujas, está bom de ver, são sempre tomadas em nome do povo e as melhores possíveis para o povo.

Desta vez, e ao contrário do que se poderia pensar, temos de reconhecer que o Governo vai ter razão. Os tribunais correm mesmo o risco de ficar às moscas, que é como quem diz à míngua de litígios, não porque os mesmos desapareçam por um passo de mágica da sociedade portuguesa mas porque quem tiver a veleidade de querer recorrer à Justiça vai ter que pensar duas vezes, mais a mais em tempo de vacas magras. Ou três, ou quatro, ou um ror de vezes, fazendo contas que serão sempre de sumir. E por quê? Porque o Governo Sócrates, sempre preocupado com o bem-estar do povo, decidiu que isso de Justiça, pese embora o que diz a Constituição, é como a Saúde, ou a Educação, ou Habitação... Ou seja, quer a quer, que a pague. Nem mais.

A menos que se tenha a «sorte» de auferir menos do que três salários mínimos nacionais, a partir desta segunda-feira os portugueses que queiram rercorrer à Justiça vão ter de pagar à cabeça as custas judiciais, não obstante o ministro Alberto Costa garantir que as «melhorias introduzidas» no novo regulamento «vão agilizar o processo e diminuir, no seu todo, as custas em cerca de 10 por cento». Até pode ser verdade, mas como é que se chega ao «todo» do processo se não houver verba para lhe dar início? Fácil, fácil. Deixem os tribunais em paz, vão para a conciliação, entendam-se, não atrapalhem, não chateiem, tenham paciência...

Num tempo em que há cada vez mais gente a acreditar que o crime compensa, estas novas regras são ouro sobre azul: o ofendido paga «à cabeça»; o arguido, se requerer a instrução do processo, nada paga «à cabeça»; mais, se o arguido for pronunciado, no final da instrução não poderá ser condenado em mais de três Unidades de Conta (cada uma corresponde agora a 102 euros), enquanto o ofendido, se perder, pode ser condenado até um máximo de dez Unidades de Conta.

Moral da história: não se ofendam, façam contas. E se o caso for grave, resta sempre o velho ditado «a vingança serve-se fria».
  • Anabela Fino


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