quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sócrates, até quando?

Pertenço a uma geração que se tornou adulta durante a II Guerra Mundial. Acompanhei com espanto e angústia a evolução lenta da tragédia que durante quase seis anos desabou sobre a humanidade.

Desde a capitulação de Munique, ainda adolescente, tive dificuldade em entender porque não travavam a França e a Inglaterra o III Reich alemão. Pressentia que a corrida para o abismo não era uma inevitabilidade. Podia ser detida.

Em Maio de 1945, quando o último tiro foi disparado e a bandeira soviética içada sobre as ruínas do Reichstag, em Berlim, formulei como milhões de jovens em todo o mundo a pergunta
"Como foi possível?"
Hitler suicidara-se uma semana antes. Naqueles dias sentíamos o peso de um absurdo para o qual ninguém tinha resposta. Como pudera um povo de velha cultura, o alemão, que tanto contribuíra para o progresso da humanidade, permitir passivamente que um aventureiro aloucado exercesse durante 13 anos um poder absoluto. A razão não encontrava explicação para esse absurdo que precipitou a humanidade numa guerra apocalíptica (50 milhões de mortos) que destruiu a Alemanha e cobriu de escombros a Europa?

Muitos leitores ficarão chocados a por evocar, a propósito da crise portuguesa, o que se passou na Alemanha a partir dos anos 30.

Quero esclarecer que não me passa sequer pela cabeça estabelecer paralelos entre o Reich hitleriano e o Portugal agredido por Sócrates. Qualquer analogia seria absurda.

São outros o contexto histórico, os cenários, a dimensão das personagens e os efeitos.

Mas hoje também em Portugal se justifica a pergunta "Como foi possível?"

Sim. Que estranho conjunto de circunstâncias conduziu o País ao desastre que o atinge? Como explicar que o povo que foi sujeito da Revolução de Abril tenha hoje como Primeiro-ministro, transcorridos 35 anos, uma criatura como José Sócrates? Como podem os portugueses suportar passivamente há mais de cinco anos a humilhação de uma política autocrática, semeada de escândalos, que ofende a razão e arruína e ridiculariza o Pais perante o Mundo?

O descalabro ético socrático justifica outra pergunta: como pode um Partido que se chama Socialista (embora seja neoliberal) ter desde o início apoiado maciçamente com servilismo, por vezes com entusiasmo, e continuar a apoiar, o desgoverno e despautérios do seu líder, o cidadão Primeiro-ministro?

Portugal caiu num pântano e não há resposta satisfatória para a permanência no poder do homem que insiste em apresentar um panorama triunfalista da política reaccionária responsável pela transformação acelerada do país numa sociedade parasita, super endividada, que consome muito mais do que produz.

Pode muita gente concluir que exagero ao atribuir tanta responsabilidade pelo desastre a um indivíduo. Isso porque Sócrates é, afinal, um instrumento do grande capital que o colocou à frente do Executivo e do imperialismo que o tem apoiado. Mas não creio neste caso empolar o factor subjectivo.

Não conheço precedente na nossa História para a cadeia de escândalos maiúsculos em que surge envolvido o actual Primeiro-ministro.

Ela é tão alarmante que os primeiros, desde o mistério do seu diploma de engenheiro, obtido numa universidade fantasmática (já encerrada), aparecem já como coisa banal quando comparados com os mais recentes.

O último é nestes dias tema de manchetes na Comunicação Social e já dele se fala além fronteiras.

É afinal um escândalo velho, que o Presidente do Supremo Tribunal e o Procurador-geral da República tentaram abafar, mas que retomou actualidade quando um semanário divulgou excert

os de escutas do caso Face Oculta.

Alguns despachos do procurador de Aveiro e do juiz de instrução criminal do Tribunal da mesma comarca com transcrições de conversas telefónicas valem por uma demolidora peça acusatória reveladora da vocação liberticida do governo de Sócrates para amordaçar a Comunicação Social.

Desta vez o Primeiro-ministro ficou exposto sem defesa. As vozes de gente sua articulando projectos de controlo de uma emissora de televisão e de afastamento de jornalistas incómodos estão gravadas. Não há desmentidos que possam apagar a conspiração.

Um mar de lama escorre dessas conversas, envolvendo o Primeiro-ministro. A agressiva tentativa de defesa deste afunda-o mais no pântano. Impossibilitado de negar os factos, qualifica de "infame" a divulgação daquilo a que chama "conversas privadas".

Basta recordar que todas as gravações dos diálogos telefónicos de Sócrates com o banqueiro Vara, seu ex-ministro foram mandadas destruir por decisão (lamentável) do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, para se ter a certeza de que seriam muitíssimo mais comprometedoras para ele do que as "conversas privadas" que tanto o indignam agora, divulgadas aliás dias depois de, num restaurante, ter defendido, em amena "conversa" com dois ministros seus, a necessidade de silenciar o jornalista Mário Crespo da SIC Noticias.

Não é apenas por serem indesmentíveis os factos que este escândalo difere dos anteriores que colocaram José Sócrates no banco dos réus do Tribunal da opinião pública. Desta vez a hipótese da sua demissão é levantada em editoriais de diários que o apoiaram nos primeiros anos e personalidades políticas de múltiplos quadrantes afirmam sem rodeios que não tem mais condições para exercer o cargo.
O cidadão José Sócrates tem mentido repetidamente ao País, com desfaçatez e arrogância, exibindo não apenas a sua incompetência e mediocridade, mas, o que é mais grave, uma debilidade de carácter incompatível com a chefia do Executivo.



Repito: como pode tal criatura permanecer como Primeiro-ministro?

Até quando, Sócrates, teremos de te suportar?

 Miguel Urbano Rodrigues


09/Fevereiro/2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O mealheiro
   
O Governo/Sócrates II assinalou os 100 dias de governação em minoria de uma forma original: começou ao 99.º dia (terá sido por não lhe chegar um dia para a encenação?) com muito alarido a disfarçar a falta de substância, que é como quem diz com muita parra e pouca uva. Entre o anúncio do arranque das obras do novo Museu dos Coches – que por acaso já vai com vários meses de atraso – e a confissão para a tendência arquitectónica (?) do primeiro-ministro, um Conselho de Ministros extraordinário no Centro Cultural de Belém com muitas declarações públicas contraditórias sobre «as grandes obras» que vão «relançar a economia», uma reunião com «personalidades da sociedade civil», um «almoço com mulheres» em que por acaso só quatro não eram membros do Governo, e um «encontro com jovens», ficou para a posteridade o lançamento formal do incentivo à «poupança das famílias» através da criação da conta poupança/futuro, isto é, do bónus de 200€ por cada bebé dado à luz.


O esquema do mealheiro não tem nada que saber pois o «simplex» continua na ordem do dia, ainda que de momento não se saiba nada quanto aos «juros favoráveis» que a conta alegadamente terá, nem qual a bonificação a que dará direito em sede de IRS, nem sequer se o montante inicial será actualizado em função da inflação de forma a garantir que de ano para ano os tais 200€ não vão minguando e fazendo o caminho da discriminação entre os nascituros vindouros. Aberta a conta em nome da criança, que só a poderá movimentar ao fazer as 18 primaveras e caso tenha cumprido a escolaridade obrigatória (se é obrigatória faz sentido admitir que não seja cumprida?), cabe à família fazer crescer o bolo com depósitos à medida das respectivas bolsas.


Dando de barato (é uma forma de dizer) o que a banca pode lucrar com os 20 a 25 milhões de euros que se estima que a iniciativa custe ao Estado este ano, cabe perguntar que poupança/futuro pode fazer uma família de desempregados, numa altura em que o desemprego afecta já mais de 10 por cento da população e as perspectivas são para que continue a aumentar. Cabe também perguntar para que servem os 200€ depositados numa conta quando as jovens famílias se debatem no presente com problemas de sobrevivência. Cabe ainda perguntar que poupança se espera das jovens famílias quando se anuncia, como fez esta semana o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, falando de Portugal, Espanha e Grécia, que para equilibrar as contas públicas estes países terão de assumir sacrifícios, como a redução de salários, para recuperar a competitividade. Cabe perguntar ainda, tomando a família em sentido lato, que poupança pode fazer a generalidade dos agregados quando minguam as pensões de reforma e restantes subsídios sociais.


O que está em causa não é, evidentemente, a poupança/futuro em si. O que está em causa é a hipocrisia de uma medida demagógica com que o Governo pretende tapar o sol com a peneira quando, em termos de opções políticas para o País, persiste em agravar as já mais que precárias condições de vida dos portugueses. O que os portugueses precisam, por mais simpático que seja, não é de um mealheiro. O que precisam é de ferramentas para o encher: o trabalho que cria riqueza. E quanto a isso, não foi preciso esperar 100 dias para perceber que este Governo nada tem a oferecer.


Anabela Fino

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O sequestro do Haiti

A reocupação do Haiti pelos Estados Unidos da América (foi isso que aconteceu sem subterfúgios) é um dos passos mais negros da caminhada belicista e imperialista de Obama. Neste texto, John Pilger põe a nu os interesses que prossegue e a quem serve o bem-falante presidente dos EUA.



John Pilger* - 03.02.10

O roubo do Haiti foi rápido e grosseiro. Em 22 de Janeiro, os Estados Unidos conseguiu "aprovação oficial" das Nações Unidas para ocupar todos os portos e aeroportos do país, e para "garantir a segurança" nas estradas. Nenhum haitiano assinou o acordo, que não tem base legal. A força impôs-se com um bloqueio naval norte-americano e a chegada de 13 mil marines, forças especiais, mercenários e, nenhum deles com preparação para ajuda humanitária.

O aeroporto na capital, Port-au-Prince, converteu-se em uma base militar americana e voos de ajuda humanitária foram desviados para a República Dominicana. A chegada de Hillary Clinton levou à suspensão de todos os voos durante três horas. Enquanto haitianos gravemente feridos esperavam por assistência médica, 800 americanos residentes no Haiti recebiam alimentos e água, para serem depois evacuados. Passaram-se seis dias antes das forças estadunidenses fornecessem água mineral às pessoas desidratadas.

Um golpe tipicamente norte-americano.

As primeiras reportagens da TV desempenharam um papel muito importante, na criação de um ambiente de caos e de crime generalizado. Matt Frei, enviado da BBC a partir de Washington, parecia à beira de um ataque enquanto, aos gritos, falava sobre a «violência» e a necessidade de «segurança». Apesar da dignidade demonstrada pelas vítimas do terramoto, e da evidência de grupos de cidadãos a trabalhar sem ajuda para resgatar as pessoas com dificuldades e, inclusivamente depois de uma declaração estadunidense em que se assegurava que a violêcia no Haiti era consideravelmente menor que ante do terramoto, Freia afirmava que «a pilhagem é a única ocupação».

e que "a velha dignidade do Haiti se tinha esfumado».
 
Desta forma, a história da violência e da exploração estadunidense no Haiti trasladava-se para as vítimas. «Não há dúvida», relatava Frei imediatamente a seguir à sangrenta invasão do Iraque pelos EUA em 2003, «que o desejo de levar o bem, de levar os valores norte-americanos ao mundo e, particularmente agora ao Médio Oriente... está agora cada vez mais ligado ao seu poder militar».

Em certo sentido, tinha razão. Nunca antes nos supostos períodos de paz as relações humanas estiveram tão militarizadas pela avidez dos poderosos. Nunca antes um presidente americano subordinou o seu governo aos dirigentes militares do seu desacreditado antecessor, como fez Barack Obama. Para prosseguir a política belicista e de dominação de George W. Bush, Obama conseguiu do Congresso um orçamento militar sem precedentes de 700 mil milhões de dólares. De facto, Obama tornou-se no porta-voz de um golpe militar.

Para o povo do Haiti as implicações são claras, ainda que grotescas. Com tropas estadunidenses no controle do seu país, Obama nomeou George W. Bush para os «trabalhos de ajuda»: uma paródia que traz à memória The Comedians, de Graham Greene, que se desenrola no Haiti de Papa Doc. Os esforços de Bush depois do Furacão Katrina, em 2005, incluiram uma limpeza étnica de grande parte da população negra de Nova Orleans. Em 2004, ordenou o sequestro do haitiano, Jean-Bertrand Aristide, eleito demovraticamente e exilou-o na África. O popular Aristide cometeu a temeridade de fazer pequenas reformas legislativas, como um salário mínimo para os explorados trabalhadores das empresas do Haiti.

A última vez que estive no Haiti, vi muitas raparigas jovens a trabalhar em máquinas estridentes e com zumbidos da fábrica Superior, de materiais de basebol, em Port au Prince. Muitas tinham os olhos inchados e os braços feridos. Puxei da câmara uma câmara e fui posto fora. O Haiti é onde a América fabrica, quase de graça, os equipamntos para o seu sagrado jogo nacional. É o lugar onde as filiais de Wal Disney fazem os pijamas de Mickey Mouse, a troco de uma miséria. Os EUA controlam o açúcar, a bauxite e o sisal do Haiti. A cultura do arroz foi substituída por arroz americano importado, o que obriga as pessoas a deslocarem-se para as cidades onde vivem em bairros de lata.

Ano após ano, o Haiti foi invadido pelos marines norte-americanos, infames pelas atrocidades que estão especializados desde as Filipinas ao Afeganistão. Bill Clinton é outro dos farsantes que conseguiu ser nomeado pela ONU para o Haiti. Adulado anteriormente pela BBC como «o senhor amável... que levou a democracia a uma terra triste e conturbada», Clinton é o mais famoso pirata do Haiti, foi ele quem exigiu a desregulamentação da economia para benefício dos donos das fábricas que exploravam os operários. Ultimamente, tem promido um negócio de 55 milhões de dólares para transformar o Norte do Haiti numa «zona turística» para os norte-americanos.

Não é por causa dos turistas que o edifício da embaixada, a 5ª maior do mundo dos EUA. Há décadas que foi descoberto petróleo no Haiti e os EUA colocam-no de reserva até que o do Médio Oriente começasse a escassear. É cada vez mais importante manter o Haiti ocupado, território estrategicamente importante para os planos de Washington para «reconquista» da América Latina. O objectivo é o derrube de democracias populares na Venezuela, Bolívia e Equador, o controlo das abundantes reservas petrolíferas da Venezuela e a sabotagem da crescente cooperação a que se opõem desde há muito tempo os regimes aliados dos Estados Unidos.

O primeiro passo para esta «reconquista» deu-se no ano passado com o golpe contra o presidente José Manuel Zelaya, que também se tinha atrevido a propor um salário mínimo e que os ricos pagassem impostos. O apoio encoberto de Obama ao regime ilegal de Honduras foi uma clara advertência aos governos vulneráveis da América Central. Em Outubro passado, o regime na Colômbia, em grande parte financiado por Washington e apoiado por esquadrões da morte, propiciou aos EUA sete bases militares para «combater governos anti-estadunidenses da região».

A propaganda mediática preparou o terreno para o que podia vir a ser a próxima guerra de Obama. Em 14 de Dezembro, investigadores na Universidade de West England publicaram os primeiros resultados de um estudo que demorou dez anos a fazer sobre os noticiários da BBC acerca da Venezuela. Das 304 reportagens da BBC, só em três se mencionavam algumas das reformas históricas ao governo Chávez, enquanto a maioria denegria o extraordinário comportamento democrático de Chávez, ao ponto de o comparar a Hitler.

Tais distorções e servilismo das potências ocidentais sobejam nos media de referência anglo-estadunidenses. As pessoas que lutam por uma vida melhor, ou simplesmente pela própria vida, da Venezuela às Honduras e ao Haiti, merecem o nosso apoio.

New Statesman, 28 de Janeiro de 2010


* Jornalista australiano


Este texto foi publicado em www.johnpilger.com/page.asp?partid=564

Tradução de Miguel Guedes

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A roupa interior do «bloco central»

Manobrado pelo PS, ansiado pelo PSD, sentido como afirmação de poder para o PR, esperançoso para o sempiterno disponível CDS, conveniente nas contas do alto patronato – o novo bloco central aí está.

Uma articulada campanha de marketing preparou-o, mastigando até à náusea um longo rosário de frases feitas:

- «A crise atinge-nos a todos e todos temos de fazer um esforço para a superar<» - afirmam os senhores do alto Capital.

- «A solução única para saída da crise é todas as forças seguirem essa solução - diz Cavaco Silva numa tradicional declaração de Presidente da República.

- «Salvar o sistema financeiro é a primeira das prioridades» - proclamou desde início o Governo.

- «Os trabalhadores têm de aceitar trabalhar mais com menor salário e menos direitos, ou ficam sem emprego» - sentenciam sisudos economistas de cartola.

- «Estamos a gastar acima das nossas possibilidades» - asseguram outros atirando a responsabilidade para o povo.

- Também alguns, proclamando-se arautos do «regresso a Marx» deixam no cesto dos papéis a teoria da mais-valia e a luta de classes para proporem o regresso a um keynesianismo mitigado.

Com o ruir do dogma do «mercado que se auto-regula» é caso para perguntar: onde estão agora os gurus do neoliberalismo? Que antes da crise falavam da «boa saúde» dos mercados?

Outras perguntas podem também ser formuladas:

«Todos temos de lutar contra a crise»: mas os interesses, objectivos e soluções do patronato, do Governo e dos trabalhadores são os mesmos?

«É preciso salvar o capitalismo»: mas salvá-lo de quê? não são as crises inerentes ao sistema? Não estamos vendo como a crise é pretexto para um brutal ataque aos trabalhadores, para cortar nas funções sociais do Estado, diminuir salários, pensões e reformas?

Esta política de bloco central passa em claro uma questão fundamental: convergência, união de esforços - em nome de quê, em defesa de quais interesses? Os da minoria que o governo protege ou os da imensa maioria por eles espoliada?

De facto, a «convergência» pedida visa apenas garantir a continuação da mesma política. Mesmo quando faz inócuas concessões que não respondem ao amplo e profundo descontentamento e sofrimento popular, tratando os direitos sociais não pelo seu perfil jurídico de pleno direito, mas como «carências» que é preciso «ajudar» - concedendo-lhes alguns auxílios «possíveis».

Este bloco central é uma solução antidemocrática que parte da falácia de que há partidos com «vocação de poder».

Na sua crispação para não perder o lugar estes partidos, que são reféns do grande poder económico, adquirem uma natureza parasitária do poder político, incapaz de elaborar e rasgar novos rumos, para enfrentar os desafios necessários ao País, de encarar o futuro com a coragem cada vez mais exigente que as dificuldades impõem.

Aurélio Santos

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

COMO SE CALA A VOZ DA SOLIDARIEDADE


domingo, 24 de janeiro de 2010

Terramoto e ocupação





Neste bem informado artigo, Jorge Cadima diz-nos que “É cada vez mais evidente a opção dos EUA por uma solução militar de largo espectro para a profundíssima crise em que estão atolados. Do Afeganistão e Paquistão, do Iémen à América Latina, quem conseguir descobrir diferenças entre Obama e Bush que avise”.

Jorge Cadima* - 24.01.10


O terramoto do Haiti ocorreu na terça-feira, 12 de Janeiro. Em 24 horas, os militares dos EUA haviam «tomado controlo» do aeroporto da capital (BBC, 18.1.10). Numa semana os EUA transportaram 9 a 10 mil soldados para o Haiti e «o Pentágono prepara-se para enviar mais» (New York Times, 17/1). O Canadá vai enviar mais mil soldados (Financial Times, 17/1). Mas a solidariedade internacional quase não saiu do aeroporto de Port-au-Prince: 5 dias após o sismo «a ONU diz que alimentou 8 mil pessoas, mas 2 a 3 milhões continuam desesperadamente necessitadas» (NYT, 17/1).

Ainda o NYT explica: «O Programa Alimentar Mundial (WFP) conseguiu finalmente fazer aterrar voos com comida, medicamentos e água no sábado, depois de tentativas goradas na quinta e sexta-feira, afirmou um funcionário dessa agência. Esses voos foram desviados para que os Estados Unidos pudessem aterrar tropas e equipamento, e transportar americanos e outros estrangeiros para [destinos] seguros. «Há 200 voos a chegar e partir todos os dias, o que é uma quantidade incrível para um país como o Haiti» disse Jarry Emmanuel, o funcionário logístico de transportes aéreos da operação haitiana da agência [WFP]. «Mas a maioria desses voos são para os militares dos Estados Unidos». Acrescentou: «As prioridades deles são garantir o controlo do país. As nossas são dar de comer».


A BBC (18/1) informa que «várias agências protestaram pelo facto de não conseguirem fazer chegar auxílio através do aeroporto», mas a família Clinton e a sua corte de jornalistas passam por lá à vontade. «A França e o Brasil apresentaram protestos oficiais porque os militares dos EUA que controlam o aeroporto negaram autorização de aterragem a voos de auxílio dos seus países» (AP, 17/1), incluindo um avião francês com um hospital móvel. Idêntico protesto veio da organização dos países das Caraíbas (CARICOM) e da Nicarágua (cubadebate, 17/1). O embaixador de França no Haiti declarou que «o aeroporto não está à disposição da comunidade internacional, transformou-se num apêndice de Washington» (Il Messaggero, 17/1). O Secretário de Estado francês para a Cooperação Alain Joyandet, pediu à ONU para definir o papel dos EUA: «trata-se de ajudar o Haiti, não de ocupar o Haiti» (Xinhua, 18/1).

Nos últimos dias repete-se que o Haiti «já não tinha Estado» antes do terramoto. Mas a comunicação social de regime pouco falou da história do Haiti no Século XX: uma história de ocupação pelos EUA (1915-34), feroz ditadura pró-americana da família Duvalier e os seus facínoras «Tontons-Macoute» (1957-86), golpes e invasões patrocinadas pelos EUA e França. Por duas vezes nos últimos 20 anos o Presidente Aristide, eleito por esmagadoras maiorias, foi derrubado em golpes de Estado inspirados em Washington. Em 2004, Aristide, tal como o Presidente hondurenho Zelaya, foi metido num avião e exilado. O próprio contou (entrevista à jornalista Amy Goodman, democracynow) que foram militares e membros da embaixada dos EUA no Haiti que o raptaram na noite de 28-29 de Fevereiro, sob o pretexto de garantir a sua segurança. Logo no dia 29, o Conselho de Segurança da ONU «tomou nota da demissão» de Aristide e aprovou o envio duma missão militar (resolução 1529), tendo os Marines dos EUA chegado ao país antes do anoitecer (Wikipedia, «2004 Haiti rebellion»). Como nas Honduras, o «quarto poder» do grande capital optou por um silêncio conivente. O papel da missão militar da ONU é relatado num filme disponível em globalresearch (item 16998).


A atitude do gigante imperialista vizinho do Haiti é coerente com a sua História. Mas o significado da ocupação militar, a pretexto da tragédia, extravasa as fronteiras daquele martirizado país. Integra-se no cerco militar que os EUA estão a montar à Venezuela e a Cuba, com as novas bases militares na Colômbia, as provocações aéreas a partir da colónia holandesa de Curaçao, o reforço da presença militar no Panamá, a recente inclusão de Cuba na lista de «países promotores do terrorismo». É cada vez mais evidente a opção dos EUA por uma solução militar de largo espectro para a profundíssima crise em que estão atolados. Do Afeganistão e Paquistão, do Iémen à América Latina, quem conseguir descobrir diferenças entre Obama e Bush que avise.
* Professor universitário e analista de politica internacional.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Afinal porquê a crise


Fala-se muito na desregulação do sistema financeiro, em produtos tóxicos ou na bolha de crédito mal parado. E o cidadão fica perguntando qual é afinal a causa da crise.


Adam Smith, o grande economista do equilíbrio perfeito entre a oferta e a procura decerto se espantaria com a arrogância dos que querem dar comandos ao mundo a partir de um omnipotente «mercado global». Mas vejamos: há mais de 150 anos o cidadão Karl Marx já falava sobre as crises do capitalismo. São, dizia ele, crises de sobreprodução em relação à capacidade de consumo solvente. Isto é: em relação à capacidade de pagamento de que a população dispõe.


E aqui entra contradição insuperável do capitalismo:


É que, ao mesmo tempo que desenvolve a capacidade produtiva do homem, com a apropriação privada da mais-valia provoca uma pauperização crescente à escala mundial e nos próprios países capitalistas. E daí a queda de consumo solvente de que Marx falava.


O «crédito fácil» criou a ilusão de que a capacidade de consumo crescia e soprou a «financeira». Expressão, tal como os «produtos tóxicos», da ganância de lucro de que o capital é inseparável.


Como aditamento vale a pena acrescentar:


Quando a pretexto da crise se esmaga o valor da força de trabalho para aumentar os lucros – diminuindo assim a capacidade de consumo solvente – o capitalismo está preparando novas e mais graves crises para o futuro.
  • Aurélio Santos
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