domingo, 18 de abril de 2010

Conversa fiada

O presidente executivo da Galp Energia, Ferreira de Oliveira, acusa os trabalhadores de estarem a «sacrificar» os resultados da empresa para 2010. Motivo: o pré-aviso de greve às horas extraordinárias nos próximos dias 17 e 18 e de greve total de 19 a 22 de Abril, em luta pela a actualização salarial e pela atribuição do Prémio de Produtividade.

A acusação consta de uma missiva aos «estimados colegas e colaboradores», enviada por email, onde Ferreira de Oliveira considera que os «objectivos da greve não são nem justos nem possíveis de satisfazer», e esgrime o aumento de 1,5% decidido sem o acordo dos sindicatos como um «aumento relevante do poder de compra».

Justificando a sua posição, o presidente executivo da Galp Energia fala do «contexto exógeno extremamente difícil» em que a empresa laborou em 2009, especificando que «os mercados ibéricos de produtos petrolíferos e gás natural caíram cerca de 10%; o preço médio do crude caiu 37%; as margens de refinação foram inferiores às do ano anterior em mais de 60%; o preço do gás natural nos mercados spot mais do que 50%». Conclusão, «todos» têm de fazer sacrifícios.

O que Ferreira de Oliveira não diz aos «estimados colegas e colaboradores» – terá sido por esquecimento? – é que no mesmo ano – o ano de todas as crises, como governantes, patrões, dirigentes partidários «com vocação de poder» e comentadores mais ou menos encartados não se cansam de repetir aos trabalhadores portugueses – a Galp Energia apresentou lucros de 213 milhões de euros (213 000 000€).

Também certamente por esquecimento, Ferreira de Oliveira omite que em 2009 os administradores da Comissão Executiva da Galp Energia receberam, entre remunerações mensais – que oscilam entre 25 000 e 76 400€ –, remunerações variáveis e um vasto leque de mordomias pouco consentâneas com a «grave crise», a módica quantia de mais de 6,2 milhões de euros (6 200 000€).

E não fala igualmente – sem dúvida para não fazer enjoar os «estimados colegas e colaboradores» – do seu próprio vencimento, o qual, a fazer fé em notícias vindas a público, dá para grandes canseiras, como fazer mil viagens às Maldivas.

Ou seja, traduzindo por miúdos, apesar da «crise económica em que vivemos», a Galp Energia apresentou lucros de milhões e continuou a pagar principescamente aos seus administradores, mas quando os «estimados colegas e colaboradores», vulgo trabalhadores, reivindicam uma mais justa redistribuição da riqueza que criaram, aqui d'el rei que se está a comprometer o futuro da empresa e das gerações vindouras.

Instalados nos seus belos cadeirões de couro, os senhores administradores querem fazer acreditar que sem eles o mundo deixaria de girar e que nem um cêntimo de mais valia seria gerado. Prosápia enganadora. Mal ouvem falar de greve é um quem nos acode e um vale tudo, até cartas aos «estimados colegas e colaboradores» com apelos à solidariedade. Só não chega a ser ridículo porque revela uma profunda verdade: sem os trabalhadores não há riqueza. Os que se apropriam dos lucros sabem-no bem, por isso têm tanto medo da luta de classes.
  • Anabela Fino

sexta-feira, 16 de abril de 2010

CHEIROS DE ABRIL
Nuclear


Foi divulgada a nova doutrina nuclear (NPR) dos EUA. A comunicação social destacou a nova promessa de «não usar ou ameaçar usar armas nucleares contra estados que não possuam armas nucleares, sejam signatários do NPT [Tratado de Não Proliferação Nuclear] e cumpram com as suas obrigações de não proliferação nuclear». A declaração foi apresentada como prova do «pacifismo» do actual Presidente dos EUA. Que não haja ilusões.

Que uma declaração de que não se pretende usar armas nucleares contra quem não as tem seja visto como um passo importante, revela bem quão agressiva e perigosa é a maior potência imperialista do planeta. Mesmo esta modesta declaração parece não ter sido pacífica, uma vez que a NPR foi divulgada com vários meses de atraso sobre o previsto. Mas os EUA continuam a reservar-se o direito de lançar um ataque nuclear inicial contra países que têm armas nucleares, países onde vive quase metade da Humanidade: a China, a Rússia, a Índia, o Paquistão, além dos aliados dos EUA (Reino Unido, França, Israel). Potenciais alvos de ataques nucleares são também países que sejam considerados prevaricadores da não-proliferação e o documento faz questão de citar dois: Irão e Coreia do Norte. Apesar de invectivar contra países que considera não respeitarem o NPT, o documento dos EUA nada diz sobre os países que nem sequer assinaram o Tratado de Não Proliferação. A razão é óbvia: entre eles está Israel – a única potência nuclear do Médio Oriente e fiel aliado dos EUA. Que já ameaçou repetidamente atacar o Irão. Os dois pesos e duas medidas estão para durar. Para que não fiquem dúvidas, a NPR diz textualmente: «Os Estados Unidos não estão preparados, no momento actual, para adoptar uma política universal que considere que o único objectivo das armas nucleares seja desencorajar um ataque nuclear». A NPR declara que os EUA querem impor a sua visão de não proliferação, incluindo «controlar todo o material nuclear vulnerável a nível mundial, no espaço de quatro anos», deixando antever que as profissões de fé «pacifistas» serão usadas para reforçar a agressividade da potência imperialista.

Há factos que não podem ser esquecidos: os EUA têm o maior orçamento militar da História, igual às despesas militares de todos os restantes países juntos. Estão empenhados em múltiplas guerras e agressões. Estão empenhados na militarização do espaço e no desenvolvimento de «uma arma que possa colmatar o vazio [resultante de cortes no arsenal nuclear]: mísseis armados com ogivas convencionais que podem atingir qualquer parte do planeta em menos duma hora» (Washington Post, 8.4.10). Este novo sistema ofensivo dá pelo nome de «Prompt Global Strike» (Ataque Global Rápido). O Washington Post relata a reacção do Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Lavrov: «Os estados do mundo dificilmente aceitarão uma situação em que as armas nucleares desapareçam, mas armas não menos desestabilizadoras surgem nas mãos de alguns membros da comunidade internacional». O general na reserva russo, Leonid Ivashov, usa linguagem menos diplomática: «o conceito Prompt Global Strike visa sustentar o monopólio dos EUA na esfera militar e alargar o fosso entre si e o resto do planeta. Em conjunto com a instalação de defesas missilísticas que visam tornar os EUA imunes a ataques de retaliação da Rússia e da China, a iniciativa Prompt Global Strike irá tornar Washington num ditador global na era moderna. Na sua essência, a nova doutrina nuclear dos EUA é um elemento do novo conceito estratégico de segurança que seria mais adequadamente descrito como uma estratégia de total impunidade. Os EUA estão a aumentar o seu orçamento militar, desencadeiam a NATO como gendarme mundial e planeiam exercícios de vida real no Irão para testar na prática a eficiência da iniciativa Prompt Global Strike. Ao mesmo tempo, Washington está a falar dum mundo totalmente livre de armas nucleares» (citação extraída dum artigo de Rick Rozoff, www.globalresearch.ca, 11.4.10). A justa e necessária desnuclearização global passa pela derrota do militarismo imperialista.
  • Jorge Cadima

quinta-feira, 15 de abril de 2010

CHEIROS DE ABRIL
Os elogios de Soares


Os elogios de Mário Soares a Passos Coelho dizem tudo, ou quase tudo, sobre as águas por onde navegam os dois partidos com maiores responsabilidades na política de desastre económico e social que tem sido imposta ao país nestes 34 anos.

«Muito hábil, politicamente, seguro de si e sabendo o que quer e sem pressas» eis o retrato feito pelo fundador do PS que caracterizou os dois discursos de Passos Coelho no XXXIII Congresso do PSD como «sensatos e inteligentes» acrescentando que «Com Passos Coelho não vai continuar o clima de permanente crispação que criou Manuela Ferreira Leite(...) quer ver como as coisas vão evoluir e arrumar, com tempo, a sua própria casa».

Nas inquietantes e perigosas afirmações lançadas a partir daquele congresso – mais privatizações, redução do valor dos salários, revisão constitucional, novas leis eleitorais - Mário Soares vê sensatez e inteligência. Não lhe repugna a ideia de se ir mais longe na política de direita, da RTP ser entregue a um qualquer Balsemão, que a próxima revisão constitucional liquide ainda mais o acervo de direitos aí inscritos, que os magros salários ainda possam ser reduzidos.

É o taticismo e a sinceridade de Mário Soares a funcionar no seu mais fino recorte, o seu sentido de missão junto do grande capital. Sabe que o tempo, tal como afirmou o banqueiro Ricardo Salgado (BES) durante o fim-de-semana, «não é de eleições». É o tempo do PS ir tão longe quanto possa na ofensiva contra os trabalhadores, o Povo e o país prevista no PEC, sendo que lá para diante se vão desenhando as alternâncias do costume para garantir que continue a mesma política pela mão do PSD, com ou sem a muleta do CDS.

Num momento em que se desenvolve a todo o vapor a velha operação de «reciclagem», desta feita do PSD, para que este assuma o governo depois do trabalho sujo do PS, e quando, simultâneamente, o discurso ultra-liberal do PSD abre caminho para que alguns mais assustados se voltem a encostar ao PS - partido que tantos sacrifícios tem imposto ao Povo - ganha maior acutilância a afirmação de que a questão decisiva não é a da mudança de caras ou de Governo, mas sim, a de uma inequívoca e necessária ruptura com esta política que só pode ser protagonizada com o PCP e construída pela luta de massas.

  • Vasco Cardoso

domingo, 11 de abril de 2010

CHEIROS DE ABRIL
Que grandes artistas!

 

 
Há que reconhecer que os partidos da política de direita – PS, PSD e CDS-PP – adquiriram, na sua longa experiência de vida em comum, uma capacidade histriónica notável.
 
Só grandes «artistas» seriam capazes de representar a farsa que todos eles representam há 34 anos: os que estão no governo a executar a política de direita comum aos três, bramando contra a «oposição» dos que lá não estão fisicamente; os que estão na «oposição» bramando contra a política que fariam se lá estivessem, e preparando-se para cumprir o seu turno.
 
É certo que, no turno de Sócrates, as coisas complicaram-se para os dois de turno à «oposição»: a representação tornou-se-lhes muito mais difícil, na medida em que a política praticada pelo Governo PS/Sócrates não dá margem para apresentar propostas mais à direita – mesmo assim, veja-se a forma brilhante como disfarçaram o facto óbvio de que o OE/PEC (ou o PEC/OE, para o caso tanto faz) é a menina dos olhos dos três.
 
Quanto ao PS debate-se com o difícil problema de justificar como é que um partido que se diz de «esquerda» concilia essa qualidade com a postura de principal artífice de uma política de direita durante mais de três décadas (isto, não obstante a ajuda preciosa fornecida por figuras como Mário Soares e Manuel Alegre, os quais, alinhando sempre com essa política de direita, conseguem fazer-se passar, quando é necessário, por seus fervorosos opositores).
 
Nos últimos tempos, os três da política de direita têm vindo a digladiar-se numa operação de arremesso de «casos», que não parece, mas é, essencialmente de auto-defesa: ora toma lá com o freeport, que é para saberes como é; ora encaixa lá o bpn, que é para não te ficares a rir - ora apanha lá com a pt/média, e vai-te curar; ora afunda-te lá com os submarinos, e pianinho…
 
Enquanto isso e com tudo isso – e graças aos média dominantes, que direccionam o alarido de acordo com os interesses dos seus donos - vão procurando desviar as atenções do que é essencial. E tentando desesperadamente esconder que esses «casos» todos são decorrências normais da política de direita que todos defendem e com a qual fazem a vida negra à imensa maioria dos portugueses.

  • José Casanova
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