sábado, 30 de agosto de 2008

O Financial Times e o "auto-confesso mentor do 11/Set"


Nos últimos dias há uma evidência crescente do avanço do totalitarismo entre os políticos e os media "de referência". Todo o mundo ocidental, conduzido pelos Estados Unidos, abraçou um regime georgiano que invadiu a Ossétia do Sul demolindo totalmente a sua capital com 50 mil habitantes, assassinou 1500 homens, mulheres e crianças e dúzias de russos das forças de manutenção da paz. Os EUA mobilizaram uma armada naval e aérea junto à costa iraniana, preparados para aniquilar um país de 70 milhões de pessoas. O New York Times publicou um ensaio de um eminente historiador israelense que advoga a incineração nuclear do Irão. Todos os mass media principais montaram uma campanha de propaganda sistemática contra a China, apoiando todos os grupos terroristas e separatistas e estimulando a opinião pública para o lançamento de uma Nova Guerra Fria. Há pouca dúvida de que esta nova onda de agressão imperial e retórica belicosa é destinada a desviar o descontentamento interno e distrair a opinião pública do aprofundamento da crise económica.

O Financial Times (FT), outrora a voz liberal e esclarecida da elitefinanceira (em contraste com o Wall Street Journal, agressivamente neo-conservador) rendeu-se à tentação totalitária-militarista. O artigo do suplemento de fim de semana, de 16-17/Agosto/2008 — "A cara do 11/Set" ( "The Face of 9/11" ) — adopta a confissão forçada de um suspeito do 11 de Setembro extorquida através de cinco ano de tortura odiosa nas masmorras de prisões secretas. Para fazer a sua argumentação, o FT publicou uma foto ampliada de meia página divulgada antes pelo antigo director da CIA George Tenet, a qual apresenta um prisioneiro desgrenhado, confuso, peludo como um macaco.

O texto do escritor, um tal Demetri Sevastopulo, confessa isto: O FT admite ser um veículo de propaganda para um programa da CIA destinado a desacreditar o suspeito enquanto este aguarda julgamento com base em confissões obtidas através da tortura.

Desde o começo até o fim, o artigo declara categoricamente que o acusado, Khaled Sheikh Mohammed, é o "auto-confesso mentor (mastermind) dos ataques do 11 de Setembro nos EUA". A primeira metade do artigo é cheia de trivialidades, destinadas a proporcionar um sentimento de interesse humano para com o tribunal e o procedimentos judiciais — uma mistura bizarra que discute desde o nariz de Khaled até a dimensão da sala do tribunal.

O ponto central de partida para a convicção do FT quanto ao suspeito é a confissão de Khaled, seu "desejo de martírio", sua compreensão da sua própria defesa e sua recitação do Corão. A peça crucial do processo do governo é a confissão de Khaled. Todas as outras "evidências" eram circunstanciais, por rumores e com base em inferências decorrentes do comparecimento de Khaled a reuniões no estrangeiro.

A principal fonte informação do FT, um informante anónimo "familiar com o programa de interrogatórios da CIA", declara categoricamente dois factos cruciais: (1) Quão pouco a CIA sabia acerca dele antes da sua prisão (ênfase minha) e (2) que Khaled resistiu mais do que os outros.

Por outras palavras, a única evidência real da CIA foi extraída pela tortura (a CIA admitiu ter efectuado o "water boarding" — uma técnica de tortura infame que leva quase à morte for afogamento). O facto de que Khaled negou reiteradamente as acusações e de que ele só confessou após cinco anos de tortura em prisões secreta torna todo o processo um caso de estudo em jurisprudência totalitária. Tendo sido sujeitos a torturas indizíveis por investigadores judiciais estado-unidenses, enfrentando acusações baseadas numa confissão extraída através da tortura, não é de admirar que Khaled tenha recusado um advogado militar nomeado pelo tribunal — um advogado que faz parte de um sistema de prisões secretas, torturas e julgamentos espectáculo. Ao invés de retratar Khaled como um fanático à procura de martírio por rejeitar um advogado, devemos reconhecer que ele está no seu perfeito juízo para pelo menos preservar o limitado espaço e tempo que lhe é concedido a fim de declarar as suas crenças e mencionar a sua disposição para morrer por aquelas crenças. Confissões extraídas através de tortura não têm validade em qualquer tribunal, especialmente após cinco ano de confinamento solitário. Aquilo que o FT denomina "o super-terrorista" com base no seu declarado "desejo de martírio" é a admissão de um indivíduo que sofreu para além da resistência humana e vê a morte como um fim para a sua horrível existência sub-humana.

A adopção pelo FT da prova coagida da CIA e dos militares, e portanto da sua utilização da tortura, coloca-o directamente no campo do estado totalitário. A viragem à direita do FT espelha a viragem europeia rumo à confrontação militar dos EUA com a Rússia, e o fortalecimento (buid-up) militar na Polónia, República Checa, Kosovo, Iraque e Geórgia. Ao legitimar a tortura, o FT abriu a porta para tornar práticas judiciais totalitárias, detenções arbitrárias, prisões secretas, confinamento solitário prolongado, julgamentos espectáculo e estórias de encobrimento uma parte normal da vida política ocidental. O refinado fascismo britânico não é menos feio do que a sua enfurecida versão estado-unidense.

  • James Petras

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A Geórgia no contexto da partilha internacional do mundo



A decisão russa de responder à provocação da Geórgia e à incapacidade norte-americana de intervir militarmente não é compreensível sem uma informação completa sobre os novos alinhamentos político militares e a profunda crise económica mundial em desenvolvimento.




Atolado em duas guerras, Iraque e Afeganistão, onde, sem honra nem glória, já perdeu a capacidade de iniciativa, em pleno desenvolvimento de uma crise mundial cujos indicadores são mais graves que os da crise de 1929 e que não se sabe quanto durará, mas onde já se vislumbra claramente o fim do dólar como moeda única de reserva do mundo, com o continente latino-americano em crescente contestação ao modelo neo-liberal e à globalização imperialista, o imperialismo ocidental, particularmente o norte-americano, assistiu ao conflito bélico desencadeado pela invasão Geórgia à Ossétia do Sul, com a sua capacidade de intervenção claramente diminuída.

A Rússia, que já dissera não aceitar o seu afastamento da nova partilha internacional do mundo [1], respondeu, ao que disse, para proteger as suas forças de manutenção da paz e defender os ossetios da agressão.

Saakashvili, eleito em 2004, com 95% dos votos, necessitava de inverter o declínio da sua imagem interna. A sua popularidade caíra em Janeiro último para 53% e continuou a curva descendente, devido à brutalidade com que reprimia as manifestações de opositores e ao silenciamento das críticas por mais leves que fossem.

Mostrando não ter compreendido a nova realidade e a reacção russa à declaração unilateral de independência do Kosovo em Fevereiro passado, Saakashvili lançou-se, com os resultados que já se estão a ver, numa guerra pela recuperação da Ossétia do Sul, esperando a passividade da Rússia, pela cobertura que supunha ter dos EUA e da UE.

Era a fórmula ideal para recuperar o prestígio perdido, como o demonstra a declaração de Alexander Roussetski, director do Centro de Segurança Regional do Cáucaso do Sul, sediado em Tbilissi, no dia do início do ataque: «O povo está com ele, porque compreende que é preciso fazer qualquer coisa.Um opositor já apelou a uma moratória na luta contra Shaakashvili».

A campanha desinformativa

Incapacitado de intervir militarmente em apoio do exército georgiano, de imediato se assistiu a uma fortíssima campanha de desinformação onde a Geórgia é tratada como vítima e os ossetios são apresentados como agressores apoiados pelo exército russo. Esta campanha, no entanto, só encontrou algum eco na opinião pública por um facto anómalo, mas real: é muito elevado o número de pessoas, de esquerda e direita e dos mais diferentes níveis de instrução, que olham a Rússia com os sentimentos de simpatia e antipatia que tinham para com a União Soviética! Tudo se passa como se a Rússia não fosse um Estado capitalista, fervorosamente neo-liberal.

Em Portugal, Cândida Pinto, no Jornal das 13 da SIC de 16 de Agosto, ao que parece propositadamente, pois nem ela nem o pivot corrigiram o erro grosseiro, chegou a citar um «general soviético» (sic) a propósito das intenções russas na resposta à agressão da Geórgia à Ossétia do Sul!

As bravatas de oratória de Bush, quando era já evidente que não ia apoiar militarmente a Geórgia, eram apresentadas como «sérios avisos» ou «exigências». E dos «sérios avisos» Bush passou, 4 meses depois de reconhecer a independência do Kosovo, à grotesca «exortação» a que Medvedev, não aceite a deliberação do Senado russo a pedir o reconhecimento imediato da independência da Ossétia e da Abakhasia…

Organização da Conferência de Shangai

Aproveitando o vazio estratégico criado pela derrota e posterior desmantelamento da URSS, os EUA lançaram uma vasta operação diplomática e militar pelo controlo da Ásia Central, tendo chegado a ter presença militar nas ex-repúblicas soviéticas de Kazaquistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Kirguisistão, com o que pensava fechar o cerco à Rússia e dominar aquela importante região petrolífera.

Então, sem capacidade para impedir o cerco que se avizinhava, a Rússia procurou as alianças possíveis que lhe permitissem não só evitar o cerco como, no futuro, lutar pela partilha internacional do mundo. E em 1996, numa conferência de chefes de Estado, o Cazaquistão, a China, o Kirguisistão, a Rússia e o Tajiquistão criam em Xangai a Organização da Conferência de Xangai (OCS), com sede em Beijing. O Uzbequistão juntou-se em 2001, depois de Karimov, presidente desde Dezembro de 1991, ter constatado que o seu «alinhamento com os EUA não lhe assegurava a manutenção no poder…».

Apresentada como um «novo modelo de cooperação internacional, nascido da necessidade de resolver disputas», a OCS evoluiu e alargou-se à cooperação e intercâmbio militar, tendo realizado o primeiro exercício militar conjunto em 2007.

É hoje claro que a OCS é cada vez mais uma estrutura de resposta à NATO e ao sonho do império planetário.

A decisão russa de responder à provocação da Geórgia e a incapacidade norte-americana de intervir militarmente não é compreensível sem uma informação completa sobre os novos alinhamentos político-militares e a profunda crise económica mundial em desenvolvimento. Ao ocultarem essa informação, os media ocidentais manipularam uma vez mais a opinião pública dos seus países.
O mundo está mais perigoso
Incapacitado para uma nova intervenção militar, o imperialismo norte-americano não se ficou pelos «sérios avisos».
Acordou com a Polónia a colocação neste país de uma base de mísseis, integrada no sistema antimíssil norte-americano na Europa (já há um acordo igual com a sempre obediente República Checa). Trata-se de uma decisão gravíssima que põe em causa, em primeiro lugar, a segurança dos povos europeus.

A decisão, há muito defendida pela equipa belicista de Bush, obteve da Rússia resposta antecipada na citada conferência de imprensa de Putin: «Se eles colocam um sistema de defesa de mísseis na Europa – e advertimo-los hoje – haverá represálias.Temos de garantir a nossa segurança. Não somos os impulsionadores deste processo. (…) Os Estados Unidos estão a construir um enorme e dispendioso sistema antimíssil que custará muitos milhares de milhão de dólares. (…) Construiremos sistemas que serão muito mais baratos, ainda que suficientemente eficazes para superar o sistema de defesa antimíssil e, portanto, manter o equilíbrio de forças no mundo. (…) Podemos aproveitar as nossas vantagens competitivas, por exemplo as capacidades militares-industriais avançadas e as capacidades intelectuais do pessoal do nosso complexo militar» [1].

Pesem as declarações em contrário é uma nova corrida armamentista que está em curso entre dois países em luta pela partilha internacional do mundo.

A luta pela paz e o desarmamento é cada vez mais a defesa da civilização contra a barbárie. «A guerra faz-se com homens e mulheres.Mas a paz também» [2].

[1] Conferência de imprensa de Putin em 4 de Junho de 2007 na reunião do G8. Este esclarecedor documento foi publicado na íntegra em www.odiario.info de 25 e 26 de Julho de 2007.[2] Apelo à paz do Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC) de 1 de Agosto de 2008, in www.cppc.pt/index.htm.



  • João Paulo Gascão

FIRMEZA DETERMINADA


" O anticomunismo é sempre antidemocrático, sejam quais

forem as roupagens que enverga"


A ofensiva ideológica anticomunista tem vindo a assumir crescente intensidade nos últimos tempos. Difundida por uma rede mediática composta pela quase totalidade dos órgãos de comunicação social – e que constitui a mais poderosa máquina de propaganda alguma vez existente – essa ofensiva segue os caminhos velhos da repetição exaustiva de velhas mentiras, manipulações, deturpações, falsificações exaltando as bondades do capitalismo e execrando todos os que se lhe opõem e, caso dos comunistas, lhe apresentam alternativas.
Os Jogos Olímpicos de Pequim foram um dos pretextos recentes para os propagandistas do sistema dominante virarem todas as suas baterias desinformativas contra a China. Ouvindo-os e lendo-os, dir-se-ia que vivemos num mundo onde os direitos humanos são harmoniosamente cumpridos e que só a China impede a universalidade dessa harmonia.Ou seja, de um lado – o lado bom – os paladinos do bem, da democracia, da liberdade e dos direitos humanos; do outro lado – o lado mau – a personificação do mal, da ausência de tudo o que no lado bom existe...

E ficaremos com uma ideia aproximada da dimensão desta patranha se verificarmos que quem assim pensa e fala, o faz em nome dos chefes de um sistema onde todos os dias morrem (à fome e por falta de cuidados de saúde) dezenas de milhares de pessoas; onde muitas centenas de milhões de cidadãos estão no desemprego, vivem em condições sub-humanas e vêem os seus direitos (humanos...) todos os dias desrespeitados e violados – um sistema cuja manutenção implica, por parte dos seus chefes, o recurso a um vale-tudo que com crescente frequência passa pela ocupação brutal de países soberanos e pelo assassinato de centenas e centenas de milhares de cidadãos inocentes.

Outros pretextos para a intensificação da ofensiva ideológica foram, nos últimos dias, a morte do escritor russo Soljenitsin e a rememoração dos acontecimentos de Praga em 1968. E foi espantoso verificar como um reaccionário empedernido, um admirador confesso de Pinochet e de Franco, um energúmeno que pediu aos EUA que invadissem Portugal e liquidassem a Revolução de Abril... foi apresentado como exemplo de lutador intrépido pela democracia e pela liberdade.

No segundo caso, para além da repetição exaustiva dos «argumentos» produzidos há quarenta anos, os estoriadores do regime aproveitaram para repetir a tese da perda, pelo PCP, da «hegemonia na luta antifascista» - tese com a qual procedem a mais uma revisão da história.

E ssa ofensiva ideológica é, obviamente, suporte essencial da política de direita que o PS e o PSD (com ou sem o CDS/PP atrelado) há trinta e dois anos têm vindo a aplicar em Portugal – a confirmar que, como a História está farta de nos ensinar, o anticomunismo é sempre antidemocrático, sejam quais forem as roupagens que enverga em cada situação.

Com efeito, o anticomunismo tem constituído a base ideológica essencial da ofensiva contra o regime democrático de Abril, ofensiva que - iniciada no preciso ano em que a Constituição da República Portuguesa consagrava esse regime – tem vindo a seguir desde então as suas linhas clássicas, desenvolvendo-se em três caminhos paralelos, complementares e simultâneos: o ataque aos direitos dos trabalhadores; o ataque às suas estruturas representativas unitárias e o ataque ao seu partido de classe.

O Código do Trabalho – expressão concreta dessa ofensiva ideológica - segue por esses dois primeiros caminhos, procurando esfacelar direitos conquistados pela luta dos trabalhadores portugueses ao longo de muitas décadas e consolidados e alargados na sequência da revolução de Abril; remetendo as relações de trabalho para um passado que, em muitos aspectos, remonta ao século XIX; e tendo na mira a CGTP – IN, construída nas condições difíceis da clandestinidade e construção maior da movimento operário português.

Exemplos outros do carácter antidemocrático, logo anticomunista, da ofensiva são as leis dos partidos e do seu financiamento.

São leis profundamente antidemocráticas, começando por sê-lo pelo facto de terem sido selectiva e cirurgicamente elaboradas visando o PCP enquanto partido da classe operária e de todos os trabalhadores, e sendo-o ainda mais pelo seu conteúdo – no primeiro caso, pretendendo proibir os militantes comunistas de decidirem sobre o que querem que seja o seu Partido e impor-lhes um modelo concebido à imagem e semelhança dos partidos que fizeram a lei; no segundo caso, constituindo um inadmissível atentado às liberdades políticas, carregado de iniludíveis ódios e rancores de classe ao PCP e àquela que é a realização mais expressiva do colectivo partidário comunista: a Festa do Avante!.

A s dúvidas expostas por jornalistas, na segunda-feira, na conferência de imprensa promovida pela direcção da Festa são bem elucidativas do carácter da referida lei e das interpretações que dela fazem os que têm como tarefa zelar pelo seu cumprimento: uma das questões em causa, é a de saber se, como o PCP sustenta, o lucro da Festa é a diferença entre as receitas e as despesas ou se, como sustentam esses zeladores, o lucro é a soma de todas as receitas...

Tal «dúvida» é por demais elucidativa do conteúdo do zelo desses zeladores...
Os ataques à Festa vão, certamente, acentuar-se nos próximos dias.
Pelo que toca ao PCP, podem os inimigos da Festa (que o são, igualmente do regime democrático) contar com a serenidade, a lucidez e a noção de responsabilidade do PCP – e, naturalmente, com a firmeza determinada construída ao longo de 87 anos de vida e de luta e de que os comunistas não prescindem seja em que circunstâncias for.
Publicado no Avante nº1813, 28.8.2008

A caminho do Estado policial


Ao promulgar, segunda-feira, a Lei da Segurança Interna e a Lei da Organização e Investigação Criminal, o Presidente da República «dá o aval a uma operação legislativa que visa assegurar um controlo político, sem precedentes, do aparelho policial e da própria investigação criminal pelo Governo», comentou José Neto, da Comissão Política do PCP, considerando ser este «o caminho para o Estado policial».Ao Avante!, José Neto disse que «para o PCP, esta promulgação não constitui surpresa» e «é um acto político que corresponde aos desígnios do bloco central de interesses, mas que é grave e deve preocupar todos aqueles que prezam a democracia e as liberdades».


«Com esta promulgação, o Presidente da República dá luz verde para o reforço de orientações e medidas securitárias e antidemocráticas, na política de segurança, que representam novos perigos e ameaças às liberdades dos portugueses», considerou o dirigente comunista.


Quanto àquelas duas leis, «o PCP mantém a convicção da inconstitucionalidade de várias normas», designadamente no que respeita a dois aspectos:- as normas que prevêem a interferência directa do secretário-geral do Sistema de Segurança Interna (uma «figura política com poderes exorbitantes») na área da investigação criminal, «pondo em causa os poderes das autoridades judiciárias, nomeadamente a autonomia do Ministério Publico»;- as que referem medidas especiais da polícia, sem controlo judicial prévio (como buscas, revistas, fecho de instalações, corte de comunicações, etc.), que «atingem os cidadãos nos seus direitos, liberdades e garantias».


Avante, 28.08.2008

quinta-feira, 28 de agosto de 2008


Antes que seja tarde


Em meados deste mês, o semanário católico italiano, Famiglia Cristiana, alertava nas suas páginas, a propósito das medidas racistas do governo contra imigrantes clandestinos e ciganos, para o espectro do ressurgimento do fascismo que paira sobre a Itália.


Uma semana depois, a 21 de Agosto, a agência Lusa, citando o jornal La Repubblica, informava que um tribunal siciliano retirara a uma mulher a custódia do seu filho de 16 anos porque o menor pertencia a um «grupo extremista».


Entre as «provas do crime» entregues pelo pai do jovem aos serviços sociais da Catânia e apresentadas em tribunal juntamente com um relatório onde se afirma que o adolescente frequentava «ambientes» propícios ao «uso de substâncias alcoólicas e psicotrópicas», contam-se o cartão da Juventude da Refundação Comunista e uma bandeira com a imagem de «Che» Guevara.


O insinuado consumo de drogas não se comprovou, mas as «provas materiais do crime» convenceram o Tribunal da Catânia, que para além de decidir entregar a custódia do menor ao pai, deliberou ainda que a mãe do adolescente lhe terá de pagar 200 euros mensais de pensão de alimentos e abandonar a casa onde residia.


Para se ficar com o quadro completo desta perturbante decisão falta dizer que o Partido da Refundação Comunista fez parte da coligação que apoiou o governo de Romano Prodi até à sua queda, em Janeiro último.


O caso levou já o secretário-geral da Refundação, Paolo Ferrero, a pedir a intervenção do presidente italiano, Giorgio Napolitano, considerando «inconstitucional e inaceitável num Estado de Direito» que um tribunal baseie a sua sentença no facto de um adolescente pertencer a um partido democrático. Desconhece-se quais serão os desenvolvimentos do processo, mas quando numa «democracia» europeia se considera crime aderir a um partido de esquerda e admirar «Che» Guevara, é caso para dizer que o espectro do fascismo está não só a ganhar forma como cada vez mais força, e não apenas em Itália. Da República Checa a Portugal, da Alemanha à França, eles andam aí. Como diria o sempre actual Brecht, quando baterem à nossa porta será demasiado tarde.



  • Anabela Fino

O ilusionista

A notícia veio no Sol e até foi citada pelo Diário de Notícias: há pelo menos 100 mil «falsos» empregados nas profusas contabilidades governamentais sobre o assunto, o que transforma a actual e propalada taxa oficial de 7% de desemprego nuns deprimentes 9%...A explicação é simples e está escarrapachada na notícia: «100 mil é o universo de pessoas em formação profissional remunerada e que, por isso, não são consideradas desempregadas à luz dos critérios usados pelo Instituto Nacional de Estatística».



Não são consideradas desempregadas, mas em breve o serão: é só acabar a «formação profissional» remunerada (que geralmente dura seis meses não renováveis – era o que faltava! de «formações» a metro passar-se a «formações» de empreitada), e então sim, ficarão irrevogavelmente no desemprego e sem qualquer remuneração, o que – valha a verdade - não preocupará por aí além a propaganda governamental, porque tais desempregados já irão engrossar novas estatísticas e outras «taxas», né?



O que também se sabe – até porque já se sabia, por esse País sindical fora - é que não só a taxa de desemprego real anda mais pelos 9% do que pelos 7% que o Governo quer impingir, como a fasquia do meio milhão de desempregados efectivos já foi claramente atingida no nosso País, restando apenas averiguar em quanto já foi ultrapassada...


Tudo isto, sublinhe-se, sem entrar em linha de conta com os recibos verdes que proliferam desde a mais variada administração pública à desvairadíssima actividade privada, camuflando salários de miséria, animando explorações desenfreadas, impondo acumulações de trabalhos e empregos para se sobreviver e, finalmente, salvando as estatísticas com que o Governo vai forjando as suas «vitórias contra o desemprego». Tudo isto sem descontar, sequer, os «empregados instantâneos» com que o Governo encharca as suas estatísticas, contabilizando, às carradas, trabalhadores sazonais como empregados efectivos, indiferente ao facto de todos eles, igualmente às carradas, estarem a trabalhar à época, à semana, à hora ou até à peça, vivendo em total insegurança, nenhuma garantia e completa ausência de futuro – o que define e caracteriza a vida de um desempregado, como o Governo está farto de saber.



Foi com este pano de fundo que o primeiro-ministro José Sócrates teve, há dias, o desplante de reivindicar para o seu Governo a «criação de 130 mil novos postos de trabalho» nestes três anos de governação, chegando ao extremo de citar os seus 150 mil empregos prometidos na campanha eleitoral que lhe deu o poder para considerar que «já não falta tudo» para «concretizar a promessa»!


É evidente que José Sócrates não deu a mais leve indicação sobre o paradeiro dos tais «130 mil postos de trabalho» que o seu Governo criou assim de repente em três anos, tal como, na semana passada – como aqui mesmo nesta coluna se assinalou -, não explicou que os tais 1200 novos postos de trabalho que foi anunciar para Santo Tirso, num novo «call center»» que a PT só abrirá daqui a um ano, afinal não são «novos» e apenas correspondem ao mesmo número de trabalhadores que a PT «dispensou» nos últimos dois anos.


Em rigor, já não falta é nada para que o País veja, a entrar-lhe pelos olhos adentro, que o actual primeiro-ministro não passa de um ilusionista, mas dos maus – dos que acabam o espectáculo com todos os truques à mostra.



  • Henrique Custódio

A NOSSA FESTA É NOSSA!


A ofensiva contra a FESTA DO AVANTE! já vai em 32 anos - tantos quantos tem a política de direita...Nessa ofensiva, os inimigos da Festa - que são os inimigos da Revolução de Abril - têm utilizado os meios e métodos correspondentes, em cada momento, às práticas contra-revolucionárias.

Em 1976 - quando o terrorismo bombista era uma das suas principais armas - eles colocaram uma bomba nas instalações da FIL, dias antes da abertura da Festa, tentando, assim, impedir a sua realização.Não o conseguiram: apesar dos estragos provocados pela bomba, a Festa abriu no dia marcado á hora marcada - graças a múltiplos esforços suplementares dos militantes comunistas seus construtores.


Depois, porque a FIL era pequena, a Festa passou para o Jamor - terreno cheio de pedras, de entulho, de mato, que os militantes comunistas desbravaram e limparam construindo ali uma Festa ainda maior e mais bonita do que a do ano anterior.Dois anos depois, o Governo da altura (era do PS mas podia ser do PSD) decidiu que o terreno do Jamor era necessário para, urgentemente, ali ser iniciada uma obra que já não me lembro qual era e que, até hoje, não foi construída...

A Festa deslocou-se para o Alto da Ajuda - terreno cheio de pedras, de entulho, de mato, que os militantes comunistas desbravaram e limparam e transformaram num aprazível espaço.Anos depois, o Governo da altura (era do PSD mas podia ser do PS) decidiu que aquele terreno era necessário, com carácter de urgência, para ali construir um polo universitário (que viria a ser construído anos depois).E a Festa ficou outra vez sem terreno...

Em extremo recurso, procurou-se e encontrou-se a Quinta do Infantado, em Loures - terreno cheio de pedras, de entulho, de mato, que os militantes comunistas desbravaram e limparam garantindo ali a construção da Festa.Foi então que o Partido decidiu comprar um terreno que assegurasse a realização tranquila de Festa. E comprou-se a Quinta da Atalaia - na sequência de uma grande campanha nacional de fundos, que o colectivo partidário comunista levou por diante com êxito e para a qual contribuiram milhares de amigos e simpatizantes do Partido.A ATALAIA É NOSSA!: foi este o grito de milhares e milhares de camaradas, no dia em que teve início a primeira Festa ali realizada.

Os objectivos da política de direita em relação à Festa tinham sido uma vez mais vencidos e, aparentemente, os problemas estavam resolvidos. Aparentemente, apenas.Na verdade, o ódio deles à Festa do Avante!, é incomensurável: eles não suportam aquela que é a maior realização política, cultural, artística, convivial ocorrida no nosso País; muito menos suportam que a Festa seja construída e realizada na base, essencialmente, do trabalho voluntário, da militância revolucionária - e não dormem a pensar que a Quinta da Atalaia é, durante três dias, o espaço com maior índice de fraternidade por metro quadrado no território nacional - um pedacinho do futuro de liberdade, de justiça, de paz, de solidariedade, de fraternidade, de amizade e camaradagem, pelo qual os comunistas lutam.

Daí o seu ódio de classe à Festa; daí o seu desejo de acabarem definitivamente com ela: daí o recurso aos métodos que lhes são característicos...Foi assim que os partidos da política de direita - PS, PSD e CDS/PP - aprovaram na Assembleia da República duas leis antidemocráticas, anticomunistas e exalando nauseabundos cheiros fascizantes: as leis dos partidos e da seu financiamento - leis que, recorde-se, o então Presidente da República, Jorge Sampaio, considerou «muito positivas»...

A partir daí, como por eles estava determinado, a lei do financiamento dos partidos passou a ser a principal arma utilizada contra a Festa do Avante! - para além, é claro, das habituais provocações sobre a presença das FARC, a venda de t-shirts com o Stáline, e tantas outras em que estes «democratas» são especialistas eméritos.E aí estão eles, outra vez, ao ataque, empunhando a lei e, de dedo no gatilho, «argumentando»...

Na conferência de imprensa da direcção da Festa, ontem realizada e que alguns jornais de hoje relatam, falou-se do principal desses «argumentos» que pode levar, dizem eles, à «inconstitucionalidade da Festa»...Dizem os responsáveis pelo cumprimento da lei que a posição assumida pelo PCP é inaceitável.E qual é essa posição inaceitável?Simples:o PCP «sustenta que o lucro da Festa é a diferença entre as receitas e as despesas».Ora, para os tais «responsáveis», «o lucro da Festa é a soma de todas as receitas»...Isto é: segundo os tais «responsáveis», os lucros nada têm a ver com as despesas e vice-versa: se, por exemplo, um almoço é vendido por dez euros, o lucro dessa venda para a organização são dez euros.

E pronto...Não julguem que estou a caricaturar. É isso mesmo que eles dizem - e é através desta boçalidade que desferem o actual ataque à Festa.Quando a desfaçatez, a desvergonha e o descaro atingem tais níveis, é caso para dizermos que nada do que esta gente diga ou faça surpreende...E, já agora, é caso para lhes dizermos, também, que a NOSSA FESTA É NOSSA - e que assim continuará a ser no futuro.

Publicado no blog "cravo de Abril"
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