segunda-feira, 6 de outubro de 2008

ORAÇÕES CAPITALISTAS




Credo


Creio no Capital que governa a matéria e o espírito;
Creio no Lucro, seu filho legítimo, e no Crédito, o Santo Espírito, que dele procede e é adorado conjuntamente;
Creio no Ouro e na Prata que, torturados na Casa da Moeda, fundidos no cadinho e batidos na balança, reaparecem ao mundo como Moeda legal e que, consideradas demasiado pesadas, depois de terem circulado sobre toda a terra, descem às caves do Banco para ressuscitar como Papel-moeda; creio na Renda a cinco por cento, a quatro e a três por cento igualmente e na Cotação autêntica dos valores;
Creio no Grande Livro da Dívida Pública, que garante o Capital contra riscos do comércio, da indústria e da usura; creio na Propriedade individual, fruto do trabalho dos outros, e na sua duração até ao fim dos séculos;
Creio na Eternidade do Assalariamento que desembaraça o trabalhador das preocupações com a propriedade;
Creio no Prolongamento da jornada de trabalho e na Redução dos salários e também na Falsificação dos produtos; creio no dogma sagrado: COMPRAR BARATO E VENDER CARO; e igualmente creio nos princípios eternos da nossa muito santa igreja, a Economia política oficial.
Amém.

Oração dominical

Capital nosso que estais neste mundo, Deus todo-poderoso, que altera o curso dos rios e fura as montanhas, que separa os continentes e une as nações, criador das mercadorias e fonte de vida, que comanda os reis e os súbditos, os patrões e os assalariados, que vosso reino se estabeleça sobre toda a terra;
Dai-nos muitos compradores que adquiram nossas mercadorias, tanto as más como as boas;
Dai-nos trabalhadores miseráveis que aceitem sem revolta todos os trabalhos e contentem-se com o mais vil salário;
Dai-nos tolos que creiam em nossos prospectos; Fazei com que nossos devedores paguem integralmente suas dívidas [1] e que o banco desconte nossos papeis;
Fazei com que Mazas [2] não se abra jamais para nós e afastai-nos da falência;
Concedei-nos rendimentos perpétuos.
Amém
--------[1] O Padre nosso dos cristãos, redigido por mendicantes e vagabundos para pobres diabos esmagados por dívidas, pedia a Deus a remissão das dívidas: dimite nobis debita nostra, diz o texto latino. Mas quando proprietários e usurários se converteram ao cristianismo, os pais da igreja traíram o texto primitivo e traduziram impudentemente debita por pecados, ofensas. Tertuliano, doutor da Igreja e rico proprietário, que sem dúvida possuía créditos sobre uma multidão de pessoas, escreveu uma dissertação sobre a Oração dominical e sustenta que era preciso entender a palavra dívidas no sentido de pecados, as únicas dívidas que os cristãos absolvem. A religião do Capital, progredindo em relação à religião católica, devia reclamar o pagamento integral das dívidas pois o crédito é a alma das transacções capitalistas.
[2] Mazas: nome de uma prisão francesa no século XIX.
[*] Autor de "Direito à preguiça" e de "A religião do capital", genro de Marx, 1842-1911. Estes textos estão contidos em "A religião do capital", livro de 1887.
por Paul Lafargue [*]

A participação dos intelectuais na luta popular por uma ruptura democrática da politica de direita



Neste texto, Manuel Gusmão depois de analisar a alteração da condição social dos intelectuais ao longo do século XX, debruça-se sobre a presente situação “em que se lesam direitos e legítimas expectativas dos trabalhadores e, simultaneamente, se degradam áreas de actividade de interesse nacional (…) e de por essa via, a burguesia tentar manter na sua dependência político-ideológica os trabalhadores intelectuais, neutralizá-los, prevenir ou abafar a sua resistência.


Em diferentes circunstâncias e documentos de organizações do PCP, tal como em posições que dimanam do grande colectivo que o Partido é e o orientam, tem-se analisado, interpretado e avaliado a natureza, a condição e os horizontes do trabalho intelectual, das profissões intelectuais e do exercício da função intelectual. Este interesse do PCP (que nos seus Estatutos se define como) “o partido político do proletariado, o partido da classe operária e de todos os trabalhadores portugueses” é plenamente justificado e historicamente corroborado. De facto, desde as origens do movimento operário e comunista que nele se integraram intelectuais e, em Portugal, a integração no PCP encontra os seus níveis mais elevados precisamente em momentos em que a sua influência orgânica na classe operária é também mais elevada. Lembremo-nos da reorganização de 40-41 ou do fluxo revolucionário desencadeado com o 25 de Abril. Esta integração supõe determinadas condições sociais e materiais e certas disposições subjectivas e ideais, que há que averiguar, mas aquelas não actuam automaticamente e exigem, tanto umas como outras, a acção das próprias forças operárias e designadamente do partido.


Entretanto ao longo do séc. XX deu-se uma nítida evolução na condição social dos intelectuais. De uma elite relativamente escassa e desenvolvendo o seu trabalho de forma relativamente independente ou em regime de “profissão liberal” foi crescendo numericamente e mantendo a sua influência social acima do seu número, crescendo o peso relativo dos assalariados em profissões que elas próprias aumentam os seus efectivos, tornando assim cada vez mais nítido o carácter socialmente heterogéneo da camada.

De uma evolução, que é mais complexa e naturalmente contraditória, pode muito resumidamente dizer-se que se confirma, hoje, a tendência para o crescimento numérico global dos trabalhadores intelectuais, assim como a do seu progressivo assalariamento, embora surjam também sinais de diferenciação social e dependência funcional dentro de uma mesma profissão.
Cresce entre eles o desemprego particularmente entre os jovens licenciados à procura do primeiro emprego. A precarização generalizada da prestação de trabalho na sociedade portuguesa atinge também estes trabalhadores e designadamente grupos profissionais que, com o 25 de Abril, tinham alcançado estabilidade de emprego e condições de progressão profissional.

Assiste-se assim, ao mesmo tempo, a um desaproveitamento crescente do potencial técnico, científico e intelectual existente em geral e ao bloqueio das perspectivas de realização profissional nas áreas da criação artística e científica, por parte de indivíduos que para elas adquiriram qualificações. Este conjunto de traços manifesta o crescimento da heterogeneidade social e da conflitualidade de classe no interior da camada social dos intelectuais: por um lado, o assalariamento, o desemprego, a precarização crescente, a baixa real dos salários daqueles que têm emprego na Função Pública aproximam a evolução da situação da grande maioria destes trabalhadores de um processo de proletarização, enquanto que escassas elites profissionais se diferenciam da massa, exercendo funções de controlo, direcção e gestão, ao estrito serviço do grande capital e acompanhando os seus interesses e posições.

Esta situação, em que se lesam direitos e legítimas expectativas dos trabalhadores e, simultaneamente, se degradam áreas de actividade de interesse nacional, constitui, do mesmo golpe, uma forma de comprimir a autonomia relativa do trabalho intelectual e de, por essa via, a burguesia tentar manter na sua dependência político-ideológica os trabalhadores intelectuais, neutralizá-los, prevenir ou abafar a sua resistência. E conhecemos, além do mais, as consequências em termos culturais da tentativa de reduzir cada vez mais essa autonomia relativa.

Há entretanto áreas onde se verificaram verdadeiras rupturas de sentido negativo, com a correspondente degradação desses sectores e dos direitos dos seus profissionais. É o que se torna claro no que se refere a todos os níveis do sistema educativo e na comunicação social. Dois sectores que são, aliás, sectores estratégicos do ponto vista da sua função cultural.É certo que também a consciência social dos intelectuais não reflecte automaticamente as alterações das suas condições de trabalho e de vida. Por isso, funcionam como empecilhos, no trabalho de enfrentamento da sua situação real, a nostalgia pelo exercício das suas funções em regime de profissão liberal, a miragem de um trabalho em absoluto independente, a dificuldade em se aceitarem como trabalhadores, a crença na possibilidade de solução individual para as situações. A estes obstáculos a uma consciência esclarecida, juntam-se outros que são efeito da condição intermédia da camada e da posição de alguns, que objectivamente partilham das migalhas sobrantes do banquete dos senhores (a violenta sobre-exploração de terceiros).

Contudo, a resistência, organiza-se, manifesta-se e sai às ruas. E esse é o caminho, o da luta. No momento actual e nos dias que se avizinham, é de importância decisiva que os trabalhadores intelectuais lutem pelos seus direitos e interesses legítimos, pelas suas condições de trabalho, pela participação na definição das políticas para os sectores em que exercem a sua actividade, e que integrem a sua luta na luta geral dos trabalhadores pelos direitos do trabalho e pela democracia. Para tal é necessário insistir na identificação dos responsáveis sociais e políticos pela crise actual à escala nacional e à escala da globalização capitalista; é necessário mostrar quais os eixos fundamentais da política de direita, executada hoje pelo PS no governo e com maioria absoluta, na continuidade fundamental de mais de 20 anos de governação à direita, contra os princípios fundamentais do regime democrático-constitucional resultante da revolução de Abril e ratificado pela Constituição da República Portuguesa.

É necessário elevar a compreensão de que é a mesma política, ao serviço dos mesmos interesses e objectivos, que se lança numa ofensiva global contra os direitos do trabalho e os direitos económicos e sociais em geral, aquela pela qual o Estado se demite das suas funções sociais e culturais e aquela que vai generalizando as limitações dos direitos e liberdades civis e políticos, enquanto prepara desde há anos um ataque legislativo á própria democracia representativa em termos de manipulação das leis eleitorais, visando romper ou contornar o princípio democrático e constitucional da proporcionalidade e corrompendo a fidedignidade e a autenticidade da representação.

É necessário compreender e alargar a consciência social de que a política de direita não é inevitável, não é uma fatalidade a que o povo português esteja amarrado. O que implica compreender que a única maneira de assegurar a sua efectiva derrota passa pela elevação da luta como raiz da experiência social e da consciência política.Por objectivos concretos e imediatos, por direitos e conquistas, pela liberdade e pela democracia, somando e multiplicando grupos e sectores, essa luta coloca como seu horizonte a necessidade de uma ruptura democrática com a política de direita.


Mais tarde ou mais cedo, colocar-se-á a questão da alternativa política. È óbvio, ou deveria sê-lo, que uma alternativa política só efectivamente o é se for o instrumento de uma política alternativa, e não uma mera colecção de estados de alma, de votos piedosos ou de fogo de artifício de cobertura á rendição da social-democracia. Uma política alternativa terá necessariamente de ser uma política de ruptura democrática com a política de direita. Esta ruptura é democrática porque reclamada pelos trabalhadores e o povo, servirá os seus interesses. É democrática porque precisamente se opõe aos eixos fundamentais da política de direita, que são factores de degradação da democracia.Na hora presente, a luta por uma ruptura democrática com a política de direita é a orientação unificadora fundamental do nosso combate actual. Ela supõe o trabalho e a luta para que a grande maioria dos intelectuais resista, lute e se alie ao conjunto de todos os outros trabalhadores. Esta necessidade de convergência é entretanto mais funda e mais perene. Ela própria ajuda a compreender que a luta actual é, simultaneamente, parte do combate mais longo por uma democracia avançada e pelo socialismo.

Ou seja, a luta por uma ruptura democrática com a política de direita é, ao mesmo tempo, a luta e o caminho pela afirmação de uma política alternativa e pela construção de uma alternativa política, assim como uma batalha do combate pela democracia avançada. Para hoje e para amanhã, permanece actual a orientação definida no Programa do PCP, segundo a qual a segunda aliança social básica da classe operária se deverá realizar entre ela e os intelectuais e outras camadas intermédias, com vistas á formação de um bloco social de forças interessadas social e politicamente no Programa que propomos para a democracia avançada, e que é em si o exemplo estruturado de um Programa que rompe democraticamente com a política de direita nas suas vertentes fundamentais.
  • Manuel Gusmão, Prof.Universitário e do CC PCP

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A vitória no referendo foi comemorada nas ruas pelo povo equatoriano
Referendo no Equador


Triunfo esmagador


O presidente equatoriano, Rafael Correa, congratulou-se com «o triunfo esmagador» do projecto de Constituição, sufragado no domingo, que visa consolidar «o socialismo do século XXI» no país.

Pouco tempo após o encerramento dos locais de voto, o presidente equatoriano anunciou ao país que a «Constituição triunfou de forma esmagadora». Horas antes, dois institutos privados tinham publicado os resultados inequívocos das sondagens realizadas à saída das urnas. O Sim recolhia entre 66 e 70 por cento dos votos, enquanto o Não se ficava pelos 25 por cento.

Mesmo na cidade de Guaiaquil, a maior urbe do Equador com 2,4 milhões de habitantes, situada a 280 quilómetros da capital Quito e principal centro dos conservadores, o Sim venceu com mais de 50 por cento.

E foi daqui que Rafael Correa, envergando roupas tradicionais indígenas, proclamou a vitória, lançando ao mesmo tempo um apelo «à unidade, àqueles que de boa fé apoiaram o Não».«Estendemos-lhes a mão para que admitam a sua derrota e que possamos avançar juntos numa nova direcção, que a grande maioria do povo equatoriano e toda a América Latina está disposta a seguir nesta altura: para uma sociedade mais justa, mais igualitária, e sem miséria», afirmou o presidente Correa, eleito em Novembro de 2006.

Mais igualdade

O novo texto comporta 444 artigos que reforçam a orientação socialista do regime. Ao Estado, a Constituição reserva a competência de «planificação do desenvolvimento» do país, cuja economia depende essencialmente da extracção de petróleo controlada por companhias estrangeiras.Colocando o ser humano acima do mercado, o Texto defende as línguas e as culturas indígenas, reconhece a água como um direito humano proibindo a sua privatização e interdita a instalação de bases militares estrangeiras em território nacional.

Entre outras conquistas constitucionais salienta-se o princípio da gratuitidade dos serviços de saúde e da educação incluindo no ensino superior. É ainda assegurada protecção social aos desempregados bem como àqueles que não têm trabalho remunerado. Cerca de metade dos 13,9 milhões de equatorianos vive actualmente abaixo do limiar da pobreza.





Aos Trabalhadores em Luta SAUDAÇÃO DA CGTP-IN
- 1 de Outubro de 2008 –

A CGTP-IN saúda calorosamente as muitas centenas de milhar de trabalhadores que no dia
1 de Outubro, data do 38.º aniversário da Central Sindical, respondendo ao apelo das suas estruturas sindicais, participaram activamente no Dia Nacional de Luta.

Durante e após o período de férias, dirigentes, delegados e activistas sindicais, mobilizaram-se e mobilizaram milhares e milhares de trabalhadores, em encontros e reuniões nas empresas e serviços por todo o país, informando, debatendo e esclarecendo, desde logo, sobre os impactos negativos desta revisão do Código do Trabalho e do empenho do Governo e do Patronato em limitar o exercício da democracia e da liberdade sindicais.

Os sentimentos e opiniões manifestadas hoje pelos trabalhadores exprimiram, de forma clara, a sua indignação perante as injustiças consubstanciadas nas políticas laborais, sociais e económicas que o patronato e o Governo vão impondo e tornam Portugal num país em que a economia real e o trabalho são secundarizados, se destroem solidariedades e laços de coesão social e territorial, se sacrificam os valores da ética e da moral política, e se anulam direitos de cidadania.

Os trabalhadores portugueses expressam inequivocamente que não querem esta revisão do Código do Trabalho; os trabalhadores não querem ver destruída a contratação colectiva tão duramente conquistada durante décadas; os trabalhadores não querem mais precariedade e mais contratos a termo como matriz da relação laboral; os trabalhadores não querem horários de trabalho decididos unilateralmente pelos patrões desrespeitando o seu tempo e a vida das suas famílias; os trabalhadores não querem verem reduzidos os custos do trabalho à custa da sua já magra retribuição salarial.

Os trabalhadores assumem esta postura de denúncia e protesto porque sentem essas políticas como injustas e penalizadoras das suas condições de vida e de trabalho, mas também, por constatarem que os duros sacrifícios a que vêem sendo submetidos apenas permitem mais acumulação de riqueza alguns e em nada contribuem para o desenvolvimento do país.

Os trabalhadores portugueses deram, também, inequívocos sinais de não se deixarem vencer pelo azedume da revolta e pelo desânimo que as actuais políticas e práticas patronais provocam. Ao participarem em grande número em toda esta luta, deixam ao país um forte sinal de que continuarão a ser actores decisivos nos processos de mudança, e, por isso afirmam que é preciso e possível viver melhor com outras políticas.
Por todo o país, em plenários, em reuniões de empresa, em protestos generalizados e solidários, com greves, paralisações parcelares, plenários, manifestações e outras acções, demonstraram consciente mobilização colectiva e determinação, os trabalhadores uniram-se e deram importantes sinais da sua disponibilidade e empenho em continuarem a luta com esperança e confiança no futuro.

Por uma vida melhor! Por outra política! Pela mudança de rumo! Por um Portugal de maior justiça social, de progresso e desenvolvido!

É PRECISO LUTAR!
É TEMPO DE RESISTIR!
É TEMPO DE AFIRMAR PROPOSTAS E CAMINHOS DE MUDANÇA!


GRÂNDOLA

Grândola, a «Vila Morena» que Zeca Afonso celebrou em canção e o MFA imortalizou no 25 de Abril como a «Terra da Fraternidade» que deu o sinal para o derrube do fascismo, foi o sítio escolhido por um vereador local para exibir a prepotência que lhe sobra através de um poder que não tem.

Imagine-se que a criatura, vereador dos Serviços Urbanos na gestão PS da câmara local, resolveu aproveitar a informação que a Comissão Concelhia de Grândola do PCP enviou à autarquia, a comunicar o local e a data da realização de um comício com Jerónimo de Sousa no próximo dia 4, para tecer o «seguinte comentário» (palavras do próprio): «Consideramos totalmente inadequada a intenção de realizar um comício na Praça D. Jorge, espaço público que na nossa opinião não é o aconselhável para eventos dessa natureza», acrescentando generosamente que «no entanto, estamos disponíveis para acolher outras propostas de localização disponibilizando desde já para o efeito o Parque de Feiras e Exposições».

Confrontado, na sequência, pelos responsáveis locais do PCP, o vereador apresentou o argumento fundamental da sua «oposição»: considera a referida praça um «espaço nobre», sem aparentemente se dar conta do ridículo da «argumentação» pois, como todo o País está farto de ver e saber, as manifestações costumam escolher e utilizar exactamente os chamados espaços nobres. Veja-se, só como exemplo, o Rossio ou os Restauradores em Lisboa, a Avenida dos Aliados no Porto ou a Praça do Geraldes em Évora...

Poder-se-ia deduzir, de imediato, que este eleito de Grândola não considera um comício político um acto cívico merecedor de um espaço nobre, sobrando o mistério dos eventos que, na discricionariedade deste mimoso vereador, estarão à altura dos seus «espaços nobres»: uma missa campal? Um concerto ao ar livre? Um teatro de fantoches? Uma exposição canina? Um desfile de carnaval? Uma vacada popular? Vá-se lá saber do que a nobreza do homem gostará...

Também há a hipótese – eventualmente mais plausível – de este senhor não ser contra os comícios políticos, mas apenas contra os comícios do PCP. E a coisa até faz sentido, sobretudo se tomarmos em conta que o tal Parque de Feiras e Exposições, agora tão pressurosamente oferecido para afastar o PCP da Praça, já foi anteriormente recusado a uma outra iniciativa do Partido, pela tutela da câmara.Seja como for, o que importa é que este cavalheiro guarde para si e para o seu círculo de «nobrezas» os comentários e opiniões que, pelos vistos, o acometem, entendendo, de uma vez por todas, que nenhum dos seus munícipes tem obrigação de lhos ouvir e, muito menos, de lhos aturar.

Saiba igualmente que o que é «totalmente inadequado» é um vereador armar-se em heraldista dos «lugares nobres» da cidade e, ainda por cima, pretender decidir quem os pode ou não frequentar. Na verdade, um vereador ou qualquer autarca não são donos de nenhuma rua ou praça e, muito menos, da liberdade de reunião pública dos cidadãos e das suas organizações.Um eleito PS exibir tal pretensão em Grândola – onde «O Povo é Quem Mais Ordena» - não é apenas ridículo, mas já agudamente patético.


  • Henrique Custódio

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A ÁGUA É DE TODOS







No dia em que se celebra o dia nacional da água, em que os trabalhadores portugueses estão em luta por melhores salários, contra a precariedade e contra a revisão gravosa da legislação laboral, as organizações promotoras da Campanha Nacional "Água é de todos, não negócio de alguns", saúdam todos os trabalhadores, e em particular os mais de 18 mil que operam nos serviços de água e saneamento que ao longo de décadas têm colocado a sua experiência e saber ao serviço do país e das populações.

A luta por melhores direitos e pela água pública não podia ter maior actualidade. O governo, ao arrepio dos interesses e necessidades do país, continua a prosseguir uma estratégia que visa a privatização e transformação em negócio da captação, gestão e distribuição da água, como a venda recente da empresa de capitais públicos Aquapor ilustra.

A isto acresce o comportamento igualmente condenável de alguns municípios que, sem prejuízo dos estrangulamentos financeiros, das dificuldades que lhes são colocadas no acesso aos fundos da UE, bem como das pressões de que são alvo no sentido de os obrigar a privatizar os serviços municipais de água e saneamento, em vez de resistir capitulam, comprometendo o acesso, o controlo democrático e a qualidade dos serviços, contribuindo para precarizar as relações de trabalho, realidades já hoje observáveis no país.

A mercantilização estende-se a todas as utilizações da água desde a fonte, com múltiplos desenvolvimentos recentes, como o novo "regime económico financeiro" da água (DL 97/2008), a concessão a empresas privadas das novas barragens hidroeléctricas que lhes permitem controlar os nossos rios, e os termos da recente revisão do Convénio com Espanha, que põe em causa as utilizações não hidroeléctricas nas bacias do Douro e do Tejo. Perante esta realidade, a Campanha Nacional "Água é de todos, não o negócio de alguns", movimento que reúne actualmente 40 organizações e tem em curso um abaixo-assinado sob o lema, "Pelo direito à água e Por uma gestão pública de qualidade", que conta já com milhares de assinaturas, reafirma a sua convicção de que o uso sustentável e justo da água só é possível com a adopção de políticas baseadas nos princípios da solidariedade e da igualdade, de valorização e respeito pelos direitos dos trabalhadores e da incorporação da sua experiência na promoção de melhores serviços públicos.

E é com o objectivo de "Afirmar o direito à água, defender e valorizar a gestão pública de qualidade, combater a privatização", que iremos realizar um Encontro Nacional, no próximo dia 18 de Outubro, no Museu da Água – Lisboa, pelas 14H, iniciativa para a qual vos convidamos desde já a assistir, e que estamos certos, constituirá um momento de esperança e de exigência de uma nova política de água ao serviço do bem-estar colectivo.

As Organizações Promotoras: Associação Água Pública Conselho Português para a Paz e Cooperação Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses Confederação Nacional da Agricultura Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura Recreio e Desporto Federação Nacional dos Professores Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública Movimento de Utentes dos Serviços Públicos Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local





terça-feira, 30 de setembro de 2008

A escalada anti-Rússia Repete as campanhas anti-soviéticas



Numa resposta à questão “por que apresentar a Rússia de Putin como o «Império do Mal» ressuscitado?”, Miguel Urbano Rodrigues, debruça-se sobre os motivos da intensa campanha anti-russa, agora em curso nos media mundiais…




Cadeias de televisão internacionais transmitiram com frequência nas últimas semanas um documentário francês sobre o assassínio da jornalista Anna Politovskaia .

O crime ocorreu em 2006. O tema é retomado no momento em que os media dos EUA e da União Europeia desenvolvem uma intensa campanha contra a Rússia, responsabilizando a pátria de Pushkin por uma politica exterior agressiva que reactualiza «a guerra-fria»

Na aparência o objectivo da iniciativa é humanista. Anna é apresentada como uma mulher maravilhosa, um ser excepcional pela bondade, abnegada, talentosa. O marido, o filho, os colegas do jornal onde trabalhava, amigos que a conheceram aparecem no filme. Todos os que conviveram com Anna esboçam dela o perfil de uma defensora dos oprimidos, uma intelectual revoltada contra a violência, a injustiça e a miséria, uma lutadora que fazia da defesa da liberdade e da democracia um fim existencial.

Não tive a oportunidade de ler qualquer artigo da Politovskaia. Respeito a sua coragem como jornalista e lamento muito que tenha sido assassinada precisamente por ser uma voz incómoda.

Mas o próprio filme, ao projectá-la como heroína, atribui-lhe afirmações que deixam transparecer traços de megalomania. A Politovskaia sentia-se culpada por não ter conseguido evitar a guerra da Chechénia. E lamenta não ter podido imprimir outro rumo a acontecimentos da história do seu país por ela acompanhados como jornalista e cidadã.

A angústia que revela é inseparável de uma ambição excessiva, quase sobre-humana.

Entretanto, os que viram o filme – transmitido em Portugal pela SIC Noticias em horário de máxima audiência – puderam verificar que, paradoxalmente, Anna, não obstante os méritos e a personalidade que, segundo o realizador, fazem dela uma heroína, não é, afinal, o objectivo do documentário.

O discurso sobre a Politovskaia e a mensagem que ela transmite têm por função projectar uma imagem terrível da Rússia actual, uma terra de horrores. A memória dos telespectadores é, aliás, encaminhada para a União Soviética, tal como a viam no Ocidente, empurrando-os para uma inevitável associação de ideias, para paralelos.

Vladimir Putin surge no pequeno écran em imagens breves mas impressivas. O suficiente para que o cidadão comum dos EUA e da Europa identifique no dirigente russo um ditador cruel, implacável, o primeiro responsável pela sociedade trágica cuja podridão é denunciada por Anna.

Cabe perguntar porquê este súbito fascínio por um documentário quase esquecido? Por que apresentar a Rússia de Putin como o «Império do Mal» ressuscitado?A veemência dessa campanha surpreendeu. Rússia é hoje um país capitalista. No início do seu segundo mandato, o Presidente George W. Bush ainda derramava elogios sobre Putin, identificando no seu colega russo um estadista responsável, quase um aliado.

A reviravolta tem uma explicação lógica. O discurso de Munique, hoje famoso, em que Putin, rompendo a oratória da troca de amabilidades, denunciou a politica de dominação mundial imposta pelos EUA alarmou Washington. Assinalou o fim de uma época. Posteriormente, a invasão da Ossétia do Sul pela Geórgia – agressão incentivada pela Casa Branca – motivou uma resposta militar russa que surpreendeu os EUA, mergulhados numa crise financeira gravíssima.

As Forças Armadas russas intervieram, expulsaram os invasores e infligiram-lhes dura punição. Mais, Moscovo reconheceu como estados soberanos as pequenas repúblicas da Ossétia do Sul e da Abkhazia, que há muito haviam proclamado a independência.A Rússia agiu em defesa dos seus interesses nacionais. O governo de Moscovo decidiu que tinha chegado o momento de assumir uma posição de firmeza perante a estratégia de expansão para leste do imperialismo estadounidense.

O presidente Medvedev foi muito claro ao denunciar os objectivos da agressão à Ossetia do Sul, financiada e apoiada por Washington. Lembrou que ela coincidia com a iminente instalação na Polónia de mísseis norte-americanos (o chamado escudo anti-missil), e com as tentativas de alargamento da NATO à Ucrânia, à Geórgia e às três repúblicas bálticas.

A politica de hostilidade real à Rússia, disfarçada por um relacionamento diplomático na aparência amistoso, tem sido uma prioridade das duas últimas Administrações dos EUA. A construção de oleodutos para transporte até ao Mediterrâneo e ao Mar Negro do petróleo do Cáucaso e da Ásia Central sem passagem por território russo, e a instalação de uma grande base militar dos EUA no Kirguizistao (próxima da fronteira da China) foram interpretadas no Kremlin como marcos de uma estratégia de expansão imperial que configura uma ameaça real à segurança da Rússia.

A redescoberta do filme que, a pretexto de erigir Anna Politovskaia em heroína do combate pela democracia, esboça um retrato dantesco da Rússia actual, responde, afinal, à necessidade de mobilizar a opinião pública do Ocidente contra o único país com capacidade militar para conter a estratégia de dominação planetária dos EUA.

Não duvido que milhões de europeus que assistiram ao filme, tão habilmente mascarado de humanista, tenham aderido a mensagens que ele transmite e deturpam grosseiramente a história.

Quantos terão registado que o documentário é totalmente omisso sobre a época de Ieltsine? Poucos. Anna, no filme, nem sequer lhe cita o nome, não obstante o crime organizado, a corrupção e as máfias terem proliferado nos anos em que Boris Ieltsine destruiu as estruturas económicas do país, desmantelou as suas indústrias de ponta, e privatizou a agricultura, transformando a Rússia num país do Terceiro Mundo.

Então as cadeias de televisão dos EUA e da União Europeia não produziam filmes criticando Ieltsine. Pelo contrario. Apresentavam-no como um cavaleiro da democracia, um defensor da liberdade. Washington financiou mesmo a sua reeleição.O sistema de poder imperial está empenhado em apresentar a Rússia de hoje – em fase de acelerado crescimento económico – como uma sucursal terrena do inferno e na diabolização de Putin.

As emissoras de televisão limitam-se a cumprir o papel que lhes é distribuído.

  • Miguel Urbano Rodrigues
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