RECORDAR ELIS REGINA
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Os lucros da gripe
Durante longas semanas no ano que terminou não houve noticiário em que não fosse dado um amplo destaque à pandemia da Gripe A. Entretanto, nas últimas semanas, essas notícias quase desapareceram da comunicação social. Mas eis que surgem agora outros registos colocando a hipótese de ter havido pressões da indústria farmacêutica sobre a Organização Mundial de Saúde, que levaram os governos a comprar vacinas em grandes quantidades.
Sem precipitar conclusões mas conhecendo nós os caminhos tenebrosos por onde se movimentam as multinacionais da indústria farmacêutica e a subserviência dos diferentes governos, é legítimo interrogarmo-nos sobre algumas destas revelações. Sobretudo quando se sabe que só a venda e comercialização de vacinas e antivirais contra a Gripe A rendeu às multinacionais do sector qualquer coisa como 5000 milhões de euros de lucro e que só a Glaxo, o laboratório que fornece as vacinas para Portugal, teve 2642 milhões de euros de lucro com este negócio.
As dúvidas começaram a surgir em vários países. Esta semana foi o insuspeito presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, Wolfgang Wodarg, a requerer a abertura de um inquérito para apuramento desta questão e a afirmar que a «falsa pandemia da gripe, criada pela OMS e outros institutos em benefício da indústria farmacêutica, é o maior escândalo do século na Medicina». Entretanto, em vários países há milhões de vacinas em stock ou encomendadas que, aparentemente, «os povos não querem usar». É o caso da Holanda, da Alemanha, da Suíça ou da França, que pediu 94 milhões de doses e tem agora 50 milhões mais do que as suas «necessidades».
Estas notícias não surpreendem. O negócio da saúde é hoje, no quadro do capitalismo, uma fonte de lucros para o capital. Não são apenas os medicamentos. São os hospitais, os seguros de saúde, o fornecimento de equipamento, a investigação. É a lógica de favorecimento dos interesses privados que está presente na política do Governo PS, que na mesma semana em que anunciou o objectivo de encerrar serviços oncológicos no SNS lançou a construção de mais dois hospitais privados com dinheiros públicos.
A confirmar-se estas notícias sobre a Gripe A, está-se perante uma verdadeira monstruosidade que não pode ficar impune.
- Vasco Cardoso
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
PSD – bate, bate, coração!
Vai dura a guerra dos barões do PSD pelo poder no partido. Há dias F. P. Balsemão, «militante número um» e patrão dos média dominantes, veio dizer que o PSD, por este caminho, estava à beira do «suicídio». Este fim-de-semana, após a prestação do líder parlamentar e de estar à vista um OE acordado entre PS e PSD, o mesmo bilionário, num jantar da Quinta da Marinha, veio rectificar o tiro - afinal, o PSD está «vivo» e recomenda-se. Mas logo L.F.Menezes fez saber que «o PSD está muito doente».
São pelo menos 10(!) os pré-candidatos na corrida a presidente do PSD: P.Coelho, o único que se assume há muito; A.Branco, à bolina da AR; M.R.Sousa, à espera da «vaga de fundo» que não aparece; P.Rangel, R.Rio e M.Sarmento, à «coca» da oportunidade, mas receosos de avançar cedo de mais; P.S.Lopes, M.Mendes, L.F.Menezes e mesmo M.F.Leite que não desdenhariam uma nova oportunidade.
Os pré candidatos não se entendem - directas ou congresso antecipado? «Intransigência negocial» QB ou «consenso fácil» com Sócrates? Voto a favor de um OE PS/PSD de inspiração presidencial, ou apenas abstenção que o viabilize mas marque distâncias, por não se ir mais longe nas políticas de direita(?) - por exemplo, até ao corte dos salários, como defende M.Frasquilho.
Facto é que a guerra dos barões do PSD está ainda mais inconclusiva, depois do grande capital e o PR Cavaco Silva terem tornado ainda mais imperativa a exigência de que PS e PSD se ponham de acordo, empurrando a putativa crise política – e a janela de oportunidade eleitoral do PSD - lá para 2011.
Facto é que as dificuldades actuais do PSD vêm de 2005, quando o PS lhe sacou de novo as clientelas e passou a fazer de forma mais eficaz a mesma política de direita. E a única esperança do PSD é o «rotativismo» e que o poder lhe caia, um dia, no regaço por esgotamento do PS, para poder então assumir o comando da continuidade da mesma política de direita. Basta esperar por esse dia. Bate, bate, coração(!).
E igualmente facto é que o PSD - como bem se viu na recente cena de ciúmes com o CDS, por «amor» ao PS - é tão responsável como o Governo de Sócrates, por acção e omissão, pela desgraçada situação em que hoje vivemos. E, com mais ou menos teatralidade, vão todos continuar juntinhos – PS, PSD e CDS – no essencial das políticas de direita. E por isso serão denunciados e combatidos, sem hesitações, pelos comunistas, os trabalhadores e o povo.
- Carlos Gonçalves
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
A lista
Depois de terem passado boa parte do século XX a espreitar para debaixo da cama a ver se estava lá escondido algum comunista, os norte-americanos correm o risco de passar o novo século a esventrar bainhas de calças à procura de terroristas. A paranóia está instalada e não cessa de ser convenientemente fomentada por quem de direito, ou seja, quem lucra com o assunto.
Num país responsável por mais agressões a países terceiros do que qualquer outro, com o armamento, as forças de segurança e os serviços de espionagem mais desenvolvidos do mundo, não deixa de ser curioso que não suscite a menor perplexidade – tanto a nível interno como externo – esta persistente necessidade de terror securitário. E no entanto se olharmos para a lista – há sempre uma lista que os média dominantes se apressam a reproduzir sem o mínimo sentido crítico –, se olharmos para a lista, dizia, dos 14 países que passaram a estar sob alta vigilância no respeitante ao trânsito aéreo de passageiros com destino aos EUA, fácil se torna perceber que ali há rabo escondido com o gato todo de fora.
É sintomático que a dita lista de «países que apoiam o terrorismo», não tendo sido oficialmente distribuída, tenha aparecido na comunicação social sem que houvesse qualquer desmentido. Mais sintomático ainda é que nessa lista fantasma conste o nome de Cuba, a pequena ilha que nem o maior radicalismo consegue rotular de superpotência, que há mais de meio século é alvo dos ataques e do bloqueio norte-americano. De Cuba, que do seu lado tem um trágico saldo de milhares de mortos e muitos milhões de prejuízo à sua economia causado pelo gigante vizinho, nunca partiu qualquer ataque aos EUA. Os terroristas que dali sairam estão todos instalados nos EUA ou ao seu serviço. E o terrorismo, que existe, é patrocinado pelos EUA contra Cuba. É caso para dizer que não há coincidências; há isso sim, uma clara aposta no terror de Estado que nem a «simpatia» de Obama consegue disfarçar.
- Anabela Fino
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sábado, 26 de dezembro de 2009
A continuação negativa
Retomando uma velha expressão – coligação negativa – dos governos de Guterres, também de maioria relativa, o actual Governo de PS e Sócrates desencadeou uma despudorada campanha de vitimização, procurando por um lado acumular capital político com vista à eventual ocorrência de uma crise e por outro esconder aquela que é de facto a sua intenção: manter a mesma política.
O certo é que o PS, a quem os portugueses retiraram a maioria absoluta, quer continuar a agir como se a tivesse. Se os portugueses penalizaram o PS com uma pesada diminuição da sua votação e ao mesmo tempo recusaram dar a maioria ao PSD, isso significa que exigiram uma mudança da política de direita dos últimos quatro anos e meio.
É esta mudança de política que, após as eleições, o PCP tem vindo a propor e a exigir, cumprindo aliás os seus compromissos e assumindo coerentemente a continuação de uma luta em que os comunistas foram protagonistas, contribuindo decisivamente para a derrota do PS e da direita. Isso implicou já a apresentação de um alargado conjunto de propostas de revogação e alteração em matérias como o Código do Trabalho, a legislação da Administração Pública, o alargamento do acesso ao subsídio de desemprego, a alteração de regras fiscais que prejudicam as micro, pequenas e médias empresas, o financiamento do ensino superior, a suspensão de normas do Estatuto da Carreira Docente incluindo a avaliação dos professores, entre muitas outras.
É preciso lembrar que durante quatro anos e meio se acumularam medidas políticas e legislativas de uma maioria absoluta que executou fielmente a política de direita que interessa ao grande capital e que a luta contra essas medidas e pela sua alteração e eliminação tem por isso de estar no centro da iniciativa política do PCP, na busca da ruptura e da mudança de que o país precisa.
É claro que muitos questionam como podem votar no mesmo sentido partidos com orientações tão diferentes como o PCP e o PSD ou o CDS-PP. O facto é que essas votações convergentes não se verificaram por haver qualquer aproximação do PCP à política de direita. É o que acontece por exemplo em relação à eliminação do pagamento especial por conta para as micro e pequenas empresas, que o PCP propõe há vários anos e o PSD agora apoiou, mesmo tendo sido um seu governo a criar esta obrigação fiscal.
É também evidente que em muitos casos o objectivo intermédio que se obtém com cada votação não incorpora uma opção de fundo idêntica em relação à questão de fundo. É o caso da suspensão da avaliação dos professores, em que o facto de o PCP, o CDS-PP e o BE (e antes também o PSD) a defenderem não significa que haja entre todos consonância em relação ao modelo final a aplicar.
Dramatização artificial
A linha de dramatização artificial que o Governo está sistematicamente a alimentar não tem sequer correspondência com medidas efectivamente aprovadas, uma vez que a maior parte das votações em que o PS saiu derrotado foram apenas na generalidade, estando agora por fazer o trabalho de especialidade, em que o PS também participa, até se conseguir um texto final.
Aliás a recente aprovação do Orçamento Rectificativo, em que o PCP se absteve por não existirem opções de fundo na alteração proposta e valorizando como real a necessidade de reforçar a Caixa Geral de Aposentações e o Serviço Nacional de Saúde, retirou ao Governo uma boa parte desse espaço de argumentação.
Toda esta campanha do PS e do Governo não pode esconder que a governabilidade de que falam é apenas a governabilidade para continuar a impor a política de direita. Certamente nos momentos fundamentais os partidos da direita a isso corresponderão. Aliás, em relação à baixa das contribuições dos patrões para a segurança social, que tendo sido proposta na Assembleia da República pelo PSD foi chumbada também graças aos votos contra do PCP, é significativo que o Governo continue nesta matéria a ceder em toda a linha, subsidiando em larga escala as empresas para o aumento do salário mínimo, sobretudo à custa da diminuição da taxa social única.
Pela nossa parte é preciso continuar a exigir as alterações de fundo, a apresentar as propostas alternativas para resolver os problemas do País e, sempre que possível, a procurar travar e fazer recuar medidas negativas, aproveitando ao máximo a nova situação política e a ausência de maioria absoluta e potenciando com a acção institucional e a iniciativa política a luta dos trabalhadores e das populações. Contra a continuação negativa da política de direita.
- Bernardino Soares
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Resultado da luta no comércio
A adaptabilidade dos horários, uma das ideias-chave da «flexigurança» que governos e patrões da Europa querem impor aos trabalhadores, perdeu uma importante batalha. Em resposta à greve, convocada para amanhã nas grandes superfícies comerciais, empresas e dirigentes patronais vieram negar publicamente que pretendam levar os horários de trabalho até às 12 horas diárias e 60 horas semanais. O CESP/CGTP-IN retirou o pré-aviso de greve, salientando a importância da dinâmica de luta nos super e hipermercados, com nítido apoio da opinião pública às posições sindicais
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